NAS MARGENS DO RIO PIEDRA EU SENTEI E CHOREI
Paulo Coelho


Eu SENTEI E CHOREI. Conta a lenda que tudo o que cai nas guas deste rio - as folhas os insectos, as penas das aves - se transforma nas pedras do seu leito. Ah quem me dera que eu pudesse arrancar o corao do meu peito e atir-lo na correnteza, e ento no haveria mais dor nem saudade, nem lembranas.
Nas margens do Rio Piedra eu sentei e chorei. O frio do Inverno fez com que eu sentisse as lgrimas na face e elas misturaram-se com as guas geladas que corriam diante de mim. Em algum lugar, este rio junta-se com outro, depois com outro at que distante dos meus olhos e do meu corao - todas estas guas se confundem com o mar.
Que as minhas lgrimas corram assim para bem longe para que o meu amor nunca saiba que um dia chorei por ele. Que as minhas lgrimas corram para bem longe, e ento eu esquecerei o rio Piedra o mosteiro, a igreja nos Pirenus, a bruma os caminhos que percorremos juntos.








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Eu esquecerei as estradas as montanhas e os campos dos meus sonhos - sonhos que eram meus e que eu no conhecia.
Eu lembro-me do meu instante mgico, daquele momento em que um sim e umno podem mudar toda a nossa existncia. Parece ter acontecido h tanto tempo e no entanto faz apenas uma semana que reencontrei o meu amado e o perdi.
Nas margens do Rio Piedra escrevi esta histria. As mos ficavam geladas as pernas entorpecidas pela posio e eu precisava parar a todo o instante.
- Procure viver. Lembrar  para os mais velhos dizia ele.
Talvez o amor nos faa envelhecer antes da hora e nos torne jovens quando a juventude j passou. Mas como no recordar aqueles momentos? Por isso escrevia, para transformar a tristeza em saudade, a solido em lembranas. Para que quando acabasse de contar a mim mesma esta histria, a pudesse lanar no Piedra - assim me tinha dito a mulher que me acolheu. Para que ento - lembrando as palavras de uma santa - as guas pudessem apagar o que o fogo escreveu.
Todas as histrias de amor so iguais.








l nhamos passado a infncia e a adolescncia juntos. Ele partiu como todos os rapazes das cidades pequenas. Disse que ia conhecer o mundo, que os seus sonhos iam alm dos campos de Soria.
Fiquei alguns anos sem notcias suas. De vez em quando recebia uma carta ou outra, mas isso era tudo
- porque ele nunca voltou aos bosques e s ruas da nossa infncia.
Quando terminei os meus estudos, mudei-me para Saragoa - descobri que ele tinha razo. Soria era uma cidade pequena e o seu nico poeta famoso dissera que o caminho  feito ao andar. Entrei para a faculdade e arranjei um noivo. Comecei a estudar para um concurso pblico que no acontecia nunca. Trabalhei como vendedora paguei os meus estudos, fui reprovada no concurso pblico, desisti do noivo.
As suas cartas, ento comearam a chegar com mais frequncia - e plos selos de diversos pases, eu sentia inveja. Ele era o amigo mais velho que sabia
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tudo, percorria o mundo e deixava crescer as suas asas - enquanto que eu procurava criar razes.
De uma hora para a outra, as suas cartas falavam em Deus e vinham sempre de um mesmo lugar em Frana. Numa delas, manifestou o desejo de entrar para um seminrio e dedicar a sua vida  orao. Eu escrevi de volta pedindo-lhe que esperasse um pouco que vivesse um pouco mais a sua liberdade antes de se comprometer com algo to srio.
Quando li a minha carta resolvi rasg-la: quem era eu para falar em liberdade ou compromisso? Ele sabia dessas coisas e eu no.
Um dia soube que ele estava a proferir palestras. Fiquei surpresa, porque era jovem demais para ensinar qualquer coisa. Mas, h duas semanas atrs, mandou-me um carto onde dizia que iria falar para um pequeno grupo em Madrid e fazia questo da minha presena.
Viajei durante quatro horas de Saragoa a Madrid, porque queria tornar a v-lo. Queria ouvi-lo. Queria sentar-me com ele num bar e lembrar os tempos em que brincvamos juntos e achvamos que o mundo era grande demais para ser percorrido.








SBADO 4 DE DEZEMBRO DE l 3








A conferncia tinha lugar num local mais formal do que eu tinha imaginado, e tinha muito mais gente do que eu esperava. No percebia como  que tudo aquilo estava a acontecer.
Se calhar ficou famoso pensei. No me tinha dito nada nas suas cartas. Senti vontade de falar com as pessoas presentes, perguntar o que faziam ali mas no tive coragem.
Fiquei surpresa ao v-lo entrar. Parecia diferente do rapaz que eu conheci - mas claro em onze anos, as pessoas mudam. Estava mais bonito e os seus olhos brilhavam.
- Est a devolver-nos o que era nosso - disse uma mulher ao meu lado. A frase era estranha.
- O que  que ele est a devolver? - perguntei.
- Aquilo que nos foi roubado. A religio.
- No ele no nos est a devolver - disse uma mulher mais jovem sentada  minha direita. - Eles no nos podem devolver aquilo que j nos pertence.








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- O que  que est aqui a fazer ento? - perguntou irritada a primeira mulher.
- Quero ouvi-lo. Quero ver como pensam, porque j nos queimaram um dia e podem querer repetir.
- Ele  uma voz solitria - disse a mulher. - Est a fazer o possvel.
A jovem esboou um sorriso irnico e, voltando-se para a frente, encerrou a conversa.
- Para um seminarista,  uma atitude corajosa continuou a mulher, desta vez olhando para mim,  procura de apoio.
Eu no estava a perceber nada, fiquei calada e a mulher desistiu. A jovem ao meu lado piscou-me um olho - como se eu fosse sua aliada.
Mas eu estava quieta por outra razo. Pensava no que a mulher tinha dito.
Seminarista.
No podia ser. Ele teria avisado.
Ele comeou a falar e eu no conseguia concentrar-me. Devia ter-me vestido melhor, pensava, sem entender a causa de tanta preocupao. Ele tinha-me visto na plateia e eu tentava decifrar os seus pensamentos: como estaria eu? Qual a diferena entre uma menina de dezoito anos e uma mulher de vinte e nove?
A sua voz era igual. No entanto as suas palavras tinham mudado muito.
E preciso correr riscos, dizia ele. S percebemos realmente o milagre da vida quando deixamos que o inesperado
acontea.
Deus d-nos todos os dias - junto com o sol - um momento em que  possvel mudar tudo o que nos deixa infelizes. odos os dias procuramos fingir que no nos apercebemos desse momento, que ele no existe, que hoje  igual a ontem e ser igual ao amanh. Mas, quem presta ateno ao seu dia, descobre o instante mgico. Ele pode estar escondido na altura em que enfiamos a chave na porta, pela manh, no instante de silncio logo aps o jantar, nas mil e uma coisas que nos parecem iguais. Mas esse momento existe um momento onde toda a fora das estrelas passa por ns, e que nos permite fazer milagres.
s vezes, a felicidade  uma bno - mas geralmente  uma conquista. O instante mgico do dia ajuda-nos a mudar, faz-nos ir em busca dos nossos sonhos. Vamos sofrer, vamos ter momentos difceis, vamos enfrentar muitas desiluses. Mas tudo isso  passaeiro e no deixa marcas. E, no futuro, poderemos olhar para trs com orgulho e f.








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Mas pobre de quem teve medo de correr riscos. Porue esse talvez no se decepcione nunca, nem tenha desluses, nem sofra como aueles que tm um sonho a seguir. Mas quando olhar para trs - porque olhamos sempre para trs
- vai ouvir o seu corao a dizer: o que fizeste com os milagres que Deus semeou nos teus dias? O que fizeste com os talentos que o teu Mestre te confiou? Enterraste-os bem fundo numa cova, porque tinhas medo de perd-los. nto, esta  a tua herana: a certeza de que desperdiaste a tua vida.
Pobre daquele que escuta estas palavras. Porque ento acreditar em milagres, mas os instantes mgicos da vida j tero passado.
As pessoas cercaram-no assim que ele acabou de falar. Eu esperei preocupada com a impresso que ele teria de mim, depois de tantos anos. Eu sentia-me uma criana - insegura, ciumenta porque no conhecia os seus novos amigos tensa porque ele dava mais ateno aos outros do que a mim.
Ento ele aproximou-se. Ficou vermelho e j no era o homem que dizia coisas importantes; voltava a ser o rapaz que se escondia comigo na ermida de So Satrio, a falar dos seus sonhos de percorrer o mundo
- enquanto os nossos pais pediam ajuda  polcia pensando que nos tnhamos afogado no rio.
- Ol Pilar - disse ele.
Eu beijei-o no rosto. Podia ter dito algumas palavras de elogio. Podia ter-me cansado de ficar no meio de tanta gente. Podia ter feito algum comentrio engraado sobre a infncia e sobre o orgulho de v-lo assim admirado plos outros.
Eu podia explicar que precisava sair a correr para apanhar o ltimo autocarro da noite para Saragoa.








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Eu podia. Jamais chegaremos a compreender o significado desta frase. Porque em todos os momentos da nossa vida existem coisas que podiam ter acontecido, e acabaram por no acontecer. Existem instantes mgicos que vo passando despercebidos e de repente a mo do destino muda o nosso universo.
Foi o que aconteceu naquele momento. Ao invs de todas as coisas que eu podia ter feito, eu fiz um comentrio. Um comentrio que uma semana depos me trouxe diante deste rio e me fez escrever estas linhas.
- Podemos tomar um caf? - foi o que eu disse. E ele, virando-se para mim, aceitou a mo que o destino oferecia:
- Eu preciso muito falar contigo. Amanh tenho uma palestra em Bilbao. Estou com carro.
- Tenho de voltar para Saragoa - respondi, sem saber que ali estava a ltima sada.
Mas, numa fraco de segundo, talvez porque voltara a ser uma criana, talvez porque no somos ns quem escreve os melhores momentos das nossas vidas, disse:
- Vem a o feriado da Imaculada Conceio. Posso acompanhar-te at Bilbao e voltar de l.
A pergunta sobre o seminarista estava na ponta da minha lngua.
- H alguma coisa que me queiras perguntar? disse ele, apercebendo-se da minha expresso.
- Sim - tentei disfarar. - Antes da conferncia, uma mulher disse que tu estavas a devolver o que era dela.
NA MARGEM DO RIO PlEDRA...   S   27
- Nada de importante.
- Para mim  importante. No sei nada da tua vida
estou surpreendida por ver tanta gente aqui.
Ele riu-se e virou-se para dar ateno aos outros
presentes.
- Um momento - disse eu, segurando-o pelo brao.
- No respondeste  minha pergunta.
- Nada que te interesse muito Pilar.
- De qualquer forma quero saber.
Ele respirou fundo e levou-me para um canto da
sala.
- Todas as trs religies monotestas - o judasmo,
o catolicismo e o islamismo - so masculinas. Os sacerdotes so homens. Os homens governam os dogmas e fazem as leis.
- E o que  que a mulher quis dizer? Ele vacilou um pouco. Mas respondeu:
- Que tenho uma viso diferente das coisas. Que
creio na face feminina de Deus.
Respirei aliviada; a mulher estava enganada. Ele no podia ser seminarista, porque os seminaristas no tm uma viso diferente das coisas.
- Explicaste-te muito bem - respondi.








A rapariga que me tinha piscado o olho estava  minha espera na porta.
- Sei que pertencemos  mesma tradio - disse ela. - O meu nome  Brida.
- No sei do que est a falar - respondi.
- Claro que sabe - riu-se ela.
Pegou-me pelo brao e samos juntas, antes que eu vesse tempo de explicar o que quer que fosse. A noite no estava muito fria e eu no sabia muito bem o que fazer at  manh seguinte.
- Onde vamos? - perguntei.
- At  esttua da Deusa - foi a sua resposta.
- Preciso encontrar um hotel barato para passar a noite.
- Depois lhe digo.
Teria preferido sentar-me num caf, conversar mais um pouco, saber tudo o que pudesse sobre ele. Mas como no queria discutir com ela, deixei que me guiasse pelo Paseo de Castellana, enquanto olhava Madrid depois de tantos anos.
NA MARGE PO RIO PlERA...      29
A meio da avenida ela parou e apontou para o
cu.
- L est ela - disse.
A lua cheia brilhava entre os ramos sem folhas.
- Est linda - comentei.
Mas ela no me ouvia. Abriu os braos em forma de cruz virou as palmas das mos para cima e ficou
a contemplar a lua.
Onde me vim meter pensei. Vim assistir a uma conferncia, acabei no Paseo de Castellana com esta louca e amanh viajo para Bilbao.
-  espelho da Deusa Terra - disse a rapariga com os olhos fechados. - Ensina-nos o nosso poder faz com que os homens nos compreendam. Nascendo brilhando/morrendo e ressuscitando no cu tu mostraste-nos o ciclo da semente e do fruto.
A rapariga esticou os braos para o cu e ficou um longo tempo nessa posio. As pessoas que passavam, olhavam e riam, mas ela nem dava conta; quem morria de vergonha era eu, por estar ao seu lado.
- Estava a precisar de fazer isto - disse depois de uma longa reverncia para a lua. - Para que a Deusa
nos proteja.
- Do que  que est a falar afinal?
- Da mesma coisa que o seu amigo falou, s que
com palavras verdadeiras.
Arrependi-me de no ter prestado ateno  palestra. Era incapaz de perceber o que ele disse.
- Ns conhecemos a face feminina de Deus - disse a rapariga enquanto voltvamos a andar. - Ns as mulheres, que entendemos e amamos a Grande Me.








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Pagamos a nossa sabedoria com as perseguies e as fogueiras mas sobrevivemos. E agora entendemos os seus mistrios.
As fogueiras. As bruxas.
Olhei melhor para a mulher a meu lado. Era bonita, os seus cabelos ruivos desciam at ao meio das costas.
- Enquanto os homens saam para caar, ns ficvamos nas cavernas, no ventre da Me, cuidando dos nossos filhos - continuou ela. - E foi a que a Grande Me nos ensinou tudo.
0 homem vivia em movimento, enquanto ficvamos no ventre da Me. Isto fez-nos perceber que as sementes se transformavam em plantas e avismos os nossos homens. Fizemos o primeiro po, e alimentmo-los. Moldmos o primeiro vaso para que eles bebessem. E entendemos o ciclo da criao porque o nosso corpo repetia o ritmo da lua.
De repente, ela parou.
- Ali est ela!
Eu olhei. No meio de uma praa, rodeada de trnsito por todos os lados havia uma fonte. No meio dessa fonte, estava a escultura de uma mulher numa carruagem puxada por lees.
- E a Praa Cibele - disse eu, querendo demonstrar que conhecia Madrid. J tinha visto aquela escultura em dezenas de postais.
Mas ela no me ouvia. Estava no meio da rua, a tentar fintar o trnsito.
- Vamos at l! - gritava, acenando-me por entre os carros.
Resolvi ir ter com ela, apenas para perguntar o no-
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me de um hotel. Aquela loucura j me estava a cansar e eu precisava dormir.
Chegmos  fonte quase ao mesmo tempo - eu com o corao aos pulos e ela com um sorriso nos lbios.
- A gua! - dizia ela. - A gua  a sua manifestao!
- Por favor eu preciso do nome de um hotel barato. Ela enfiou as mos na fonte.
- Faa o mesmo - disse-me. - Toque na gua.
- De jeito nenhum. Mas no quero atrapalh-la. Vou deix-la e vou procurar um hotel.
- S mais um momento.
A rapariga tirou uma pequena flauta da sua mala e comeou a tocar. A msica parecia ter um efeito hipntico: o rudo do trfego foi-se tornando distante e o meu corao acalmou-se. Sentei-me na borda da fonte a ouvir o barulho da gua e da flauta, com os olhos fixos na lua cheia acima de ns. Algo me dizia que - embora eu no conseguisse compreender completamente - ali estava um bocado da minha natureza de mulher.
No sei durante quanto tempo ela tocou. Quando acabou, virou-se para a fonte.
- Cibele - disse ela. - Uma das manifestaes da Grande Me. Que governa as colheitas sustenta as cidades, devolve  mulher o seu papel de sacerdotisa.
- Quem  a senhora? - perguntei. - Por que me pediu que a acompanhasse? Ela virou-se para mim:
- Sou o que acha que eu sou. Fao parte da religio da Terra.
- O que quer de mim? - insisti.








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- Posso ler nos seus olhos. Posso ler no seu corao. Ir apaixonar-se. E sofrer.
-Eu?
- Sabe do que estou a falar. Eu vi como ele a olhava. Ele ama-a.
Aquela mulher estava louca.
- Por isso/ chamei-a para sair comigo - continuou.
- Porque ele  importante. Embora diga tolices pelo menos reconhece a Grande Me. No deixe que ele se perca. Ajude-o.
- No sabe o que diz. Est perdida no meio das suas fantasias - disse eu, enquanto me embrenhava de novo por entre os carros, jurando nunca mais pensar nas palavras daquela mulher.
DOMINGO 5 DE DEZEMBRO DE l 3








l armos para tomar um caf.
- A vida ensinou-te muitas coisas - disse eu/ tentando manter a conversa.
- Ensinou-me que podemos aprender ensinou-me que podemos mudar - respondeu ele. - Mesmo que parea impossvel.
Estava a esquivar-se ao assunto. Quase no tnhamos falado, durante duas horas de viagem at quele caf de estrada.
A princpio procurei relembrar o nosso tempo de infncia mas ele apenas demonstrava um interesse educado. No estava sequer a ouvir, e fazia perguntas sobre coisas que eu j dissera.
Alguma coisa estava errada. Podia ser que o tempo e a distncia o tivessem afastado para sempre daquele mundo. Ele fala sobre instantes mgicos, pensei comigo mesma. Que diferena faz a carreira que seguiu Carmen, Santiago ou Maria? O seu universo era outro, Soria resumia-se a uma lembrana distante - parada no tempo com os amigos de infncia ainda na








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infncia e os velhos ainda vivos e fazendo o que j faziam h vinte e nove anos atrs.
Coecei a ficar arrependida por ter aceite a boleia. Quando ele mudou novamente de assunto durante o caf, resolvi no insistir mais.
As restantes duas horas at Bilbao foram uma verdadeira tortura. Ele olhava para a estrada eu olhava pela janela e nenhum dos dois escondia o mal-estar que se tinha instalado. O carro de aluguer no tinha rdio e a soluo era aguentar o silncio.
V amos perguntar onde  o terminal dos autocarros - disse eu assim que samos da auto-estrada.
- H uma linha regular para Saragoa.
Era a hora da siesta e havia pouca gente nas ruas. Passmos por um senhor por um casal de jovens e ele no parou para obter a informao.
- Sabes onde  que ? - perguntei, depois de algum tempo.
- Onde  o qu?
Ele continuava sem ouvir o que eu lhe dizia. De repente entendi o silncio. O que  que ele poderia ter para conversar com uma mulher que nunca se tinha aventurado pelo mundo fora? Qual  a graa de se estar ao lado de algum que tem medo do desconhecido que prefere um emprego seguro e um casamento convencional? Eu - pobre de mim - falava dos mesmos amigos de infncia das lembranas empoeiradas de um povoado insignificante. Era o meu nico assunto.








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- Podes-me deixar aqui mesmo - disse eu, quando chegmos ao que parecia ser o centro da cidade. Tentei parecer natural mas sentia-me tola infantil e aborrecida.
Ele no parou o carro.
- Tenho que apanhar o autocarro de volta para Saragoa - insisti.
- Nunca aqui estive. No sei onde  o meu hotel. No sei onde  a conferncia. No sei da estao dos autocarros.
Eu dou um jeito no te preocupes. Ele foi diminuindo a velocidade, mas continuava a guiar.
- Gostaria... - disse.
Por duas vezes ele no conseguiu terminar a frase. Eu imaginava o que ele gostaria: agradecer a minha companhia, mandar algumas lembranas aos amigos, e - desta maneira - aliviar aquela sensao desagradvel.
- Tenho uma conferncia hoje  noite - disse por fim. - Gostaria que fosses comigo.
Apanhei um susto. Talvez ele estivesse a tentar ganhar tempo para remediar o silncio constrangedor da viagem.
- Gostaria muito que fosses comigo - repetiu. Eu podia ser uma rapariga do interior, sem grandes histrias de vida para contar, sem o brilho e a presena das mulheres da cidade. Mas a vida do interior, embora no deixe a mulher mais elegante ou preparada, ensina como ouvir o corao e entender os seus instintos.
NA MARGEM DO RO PlEDRA...      39
Para surpresa minha, o meu instinto dizia-me que ele estava a ser sincero.
Respirei aliviada. Claro que no ia ficar para conferncia nenhuma mas ao menos o meu amigo querido parecia estar de volta chamando-me para as suas aventuras, dividindo comigo os seus medos e as suas vitrias.
- Obrigada pelo convite - respondi. - Mas no tenho dinheiro para o hotel e preciso voltar para os meus estudos.
- Eu tenho algum dinheiro. Podes ficar no meu quarto. Pedimos duas camas separadas.
Reparei que ele comeava a suar, apesar do frio. O meu corao comeou a dar sinais de alarme, os quais no conseguia identificar. A sensao de alegria de momentos antes foi substituda por uma imensa confuso.
Ele parou o carro de repente e olhou-me nos olhos.
Ningum consegue mentir ningum consegue esconder nada, quando olha olhos nos olhos.
E toda a mulher com um mnimo de sensibilidade consegue ler nos olhos de um homem apaixonado. Por mais absurdo que possa parecer por mais fora de lugar e de tempo que esta paixo possa manifestar-se. Lembrei-me imediatamente das palavras da mulher ruiva, na fonte.
No era possvel. Mas era verdade.








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Eu nunca nunca em toda a minha vida tinha pensado que - tanto tempo depois - ele ainda se lembrava. ramos crianas vivamos juntos e descobrimos o mundo de mos dadas. Eu amei-o - se  que uma criana consegue perceber o significado do amor. Mas aquilo tinha acontecido h muito tempo - numa outra vida onde a inocncia deixa o corao aberto para o que h de melhor na vida.
Agora ramos adultos e responsveis. As coisas da infncia eram coisas da infncia.
Tornei a olhar para os seus olhos. Eu no queria ou no conseguia acreditar.
- Tenho mais esta conferncia e depois vem o feriado da Imaculada Conceio. Eu preciso ir at s montanhas - continuou. - Preciso mostrar-te algo.
O homem brilhante, que falava de instantes mgicos estava ali na minha frente agindo da maneira mais errada possvel. Avanava rpido demais estava inseguro fazia propostas confusas. Era duro v-lo desta maneira.
Abri a porta sa, e encostei-me ao carro. Fiquei a olhar para a avenida deserta  minha frente.
Acendi um cigarro e procurei no pensar. Podia disfarar fingir que no estava a entender - podia tentar convencer-me a mim mesma que era realmente uma proposta de um amigo para uma amiga de infncia. Talvez ele estivesse h muito tempo a viajar, e comeasse a confundir as coisas.
Talvez eu estivesse a exagerar.
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Ele saltou do carro e sentou-se a meu lado.
- Gostaria que ficasses para a conferncia desta noite - disse mais uma vez. - Mas se no puderes,
eu entendo.
Pronto. O mundo dera uma volta inteira e regressava ao seu lugar. No era nada do que eu pensava ele j no insistia mais j estava disposto a deixar-me partir. Homens apaixonados no se comportam
desta maneira.
Senti-me tola e aliviada ao mesmo tempo. Sim eu podia ficar pelo menos mais um dia. Jantaramos juntos e embriagar-nos-amos um pouco - coisa que jamais fizemos quando crianas. Era uma boa oportunidade para esquecer as parvoces que eu tinha pensado minutos antes para quebrar o gelo que nos acompanhava desde Madrid.
Um dia no ia fazer grande diferena. Pelo menos, ia ter alguma coisa para contar s minhas amigas.
- Camas separadas - disse eu, em tom de brincadeira. - E pagas tu o jantar porque eu continuo estudante. No tenho dinheiro.
Colocmos as malas no quarto do hotel e descemos para caminhar at ao local da conferncia. Chegmos cedo e sentmo-nos num caf.
- Quero dar-te uma coisa - disse ele enquanto me entregava um saco vermelho.
Eu abri-o imediatamente. L dentro uma medalha velha e enferrujada - com a Nossa Senhora das Graas de um lado e o Sagrado Corao de Jesus do outro.








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- Era tua - disse ele ao ver a minha cara de surpresa.
O meu corao comeou outra vez a dar sinais de alarme.
- Um dia - era um Outono como este e ns devamos ter dez anos - sentei-me contigo na praa do grande carvalho.
Eu ia dizer algo, algo que ensaiara durante semanas a fio. Assim que comecei, tu disseste-me que tinhas perdido a tua medalha na ermida de So Satrio e pediste-me para ir l procur-la.
Eu lembrava-me. Ah Deus como eu me lembrava.
- Consegui encontr-la. Mas quando voltei  praa, j no tinha coragem para dizer aquilo que tinha ensaiado. - continuou.
Ento prometi a mim mesmo que, s tornaria a entregar-te a medalha quando pudesse completar a frase que comecei a dizer naquele dia h quase vinte anos atrs. Durante muito tempo tentei esquecer essa frase, e ela continuava presente. No posso viver mais com ela.
Ele acabou de beber o caf acendeu um cigarro e ficou um longo tempo a olhar para o tecto. Depois virou-se para mim.
- A frase  muito simples - disse. Eu amo-te.








s vezes somos possudos por uma sensao de trsteza que no conseguimos controlar - dzia ele. Percebemos ue o instante mgico daquele dia passou e nada fiemos. Ento, a vida esconde a sua magia e a sua arte.
emos que dar ouvidos  criana que fomos um dia e que ainda existe dentro de ns. Essa criana percebe de instantes mgicos. Podemos sufocar o seu pranto, mas no podemos calar a sua vo.
Essa criana que fomos um dia continua presente. Bem-aventurados os pequeninos, porque deles  o Reino dos Cus.
Se no nascermos de novo, se no tornarmos a olhar a vida com a inocncia e o entusiasmo da infncia, viver no ter mais sentido.
Existem muitas maneiras de se cometer suicdio. Os que tentam matar o corpo, ofendem a lei de Deus. Os que tentam matar a alma, tamm ofendem a lei de Deus, emora o seu crime seja menos visvel aos ohos do homem.
Prestemos ateno ao que nos diz a criana que temos guardada no peito. No nos envergonhemos por causa dela.
NA MAREM 00 RIO PlEDRA...   S
0 vamos deixar que ela tenha medo, porque est s e
quase nunca  ouvida.
Vamos permitir que ela tome um pouco as rdeas da nossa existncia. Essa criana sabe que um dia  diferente
do outro. Vamos fazer com que ela se sinta amada novamente.
Vamos agradar-lhe - mesmo que isso signifique agir de uma maneira a que no estamos acostumados, mesmo que
isso parea uma tolice aos olhos dos outros.
Lembrem-se que a sabedoria dos homens  loucura diante
de Deus. Se ouvirmos a criana que temos na alma, os nossos olhos tornaro a brilhar. Se no perdermos o contacto com essa criana, no perderemos o contacto com a via.








As cores  minha volta comearam a ficar mais fortes e eu senti que estava a falar mais alto e a fazer mais rudo quando voltei a colocar o copo na mesa.
m grupo de quase dez pessoas tinha sado directamente da conferncia para jantar. Todos falavam ao mesmo tempo e eu sorria - eu sorria porque era uma noite diferente a primeira noite, em muitos anos, que eu no tinha planeado.
Que alegria!
Quando decidi ir at Madrid, tinha os meus sentimentos e as minhas aces sob controlo. De repente tudo tinha mudado. Eu estava ali - numa cidade onde nunca tinha posto os ps embora ficasse a menos de trs horas da minha cidade natal. Eu estava ali, sentada naquela mesa onde conhecia apenas uma pessoa - e todos falavam comigo como se me conhecessem h muito tempo. Eu estava ali, e surpreendia-me comigo mesma porque era capaz de conversar beber e divertir-me com eles.
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Eu estava ali porque, de repente, a vida entregou-
-me  Vida. E no sentia culpa, medo ou vergonha.  medida que ia ficando perto dele - e que o ouvia falar
- ia-me convencendo de que ele tinha razo: existem momentos em que ainda  preciso correr riscos dar passos loucos.
Fico dias a fio diante daqueles livros e cadernos, a fazer um esforo sobre-humano para comprar a minha prpria escravido pensei. Porque quero este emprego? Em que  que ele me vai acrescentar como ser humano, ou como mulher?
Nada. Eu no tinha nascido para ficar o resto da minha vida atrs de uma mesa, a ajudar os juizes a despachar processos.
No posso pensar assim sobre a minha vida disse para mim mesma com um medo repenno. Vou ter que voltar para ela ainda esta semana.
Devia ser o efeito do vinho. Afinal de contas quem no trabalha, no come.
Isto  um sonho. Vai acabar.
Mas por quanto tempo poderei prolongar este sonho? Pela primeira vez naquela noite pensei em acompanh-lo nos prximos dias at s montanhas.
Afinal de contas comeava agora uma semana de feriados.
- Quem  voc? - perguntou uma bela mulher que estava na nossa mesa.
- Uma amiga de infncia - respondi.
- Ele j fazia destas coisas quando criana? - continuou ela.
- Que coisas?








48   PAULO COELHO
A conversa na mesa pareceu diminuir, e parar.
- Voc sabe - insistiu a mulher. - Os milagres.
- Ele )' sabia falar bem - respondi sem perceber o que  que ela estava a dizer.
Todos se riram inclusive ele - e eu fiquei sem saber o motivo daquela risota. Mas o vinho deixava-me livre eu no precisava controlar tudo o que se passava.
Parei olhei  minha volta, e fi um comentrio qualquer sobre um assunto que esqueci no momento seguinte. E voltei a pensar nos feriados.
Era bom estar ali, conhecer gente nova. As pessoas discutiam coisas srias no meio de comentrios engraados e eu tinha a sensao de estar a particpar do que ia acontecendo no mundo. Pelo menos esta noite eu no era a mulher que assiste  vida pela TV ou plos jornais.
Quando voltasse para Saragoa, ia ter muito que contar. Se aceitasse o convite para o feriado da Imaculada - ento eu podia passar um ano inteiro a viver de recordaes.
Ele tinha toda a razo em no prestar ateno  minha conversa sobre os amigos de Soria, reflecti. E senti pena de mim mesma: h anos que a gaveta da minha memria continha poucas personagens e sempre as mesmas histrias para acompanhar.
- Beba mais um pouco - disse um homem de cabelos brancos enquanto enchia o meu copo.
Eu bebi. Pensei nas poucas coisas que teria para contar aos meus filhos e netos.
- Estou a contar contigo - disse ele, de maneira a que s eu ouvisse. - Vamos juntos. Vamos at Frana.
J                   NA MAKEM 1)0 RIO PiERA...       49
; O vinho deixava-me cada vez mais livre para dizer ' que pensava.
f - S se deixares bem clara uma coisa - respondi. |h-0qu?
| - Aquilo de que falaste antes da conferncia. No caf.
- A medalha?
- No - respondi olhando-o nos olhos e fazendo ' os possveis por parecer sbria. - O que tu disseste. ;      - Depois conversamos - disse ele mudando de assunto.
A declarao de amor. No tnhamos tido tempo para conversar mas eu tinha a certeza que poderia convenc-lo facilmente de que no era nada daquilo.
- Se queres que viaje contigo,  preciso que me ouas - disse.
- No quero conversar aqui. Estamos a divertir-nos.
- Tu partiste muito cedo de Soria - insisti. - Eu sou apenas um lao com a tua terra. Eu levei-te prximo das tuas razes e isso deu-te foras para seguir adiante. Mas  tudo. No pode existir nenhum amor. Ele ouviu-me sem comentar. Algum o chamou para saber a sua opinio e no consegui continuar a conversa. Pelo menos deixei claro o que penso disse para " mim mesma. No existia aquele amor. No podia existir tal amor, excepto nos contos de fadas. Porque, na vida real, o amor precisa ser possvel. Nesmo que no haja uma retribuio imediata, o mor s consegue sobreviver quando existe a espeana - por mais distante que seja - de que conquisemos a pessoa amada. l O resto  fantasia.








50    PULO COELHO
Como se tivesse adivinhado o meu pensamento, ele props-me um brinde do outro lado da mesa:
- Ao amor! - disse.
Tambm ele estava um pouco embriagado. Resolvi aproveitar a oportunidade.
- Aos sbios, capazes de entender que certos amores so tolices de infncia - disse eu.
- Aquele que  sbio s  sbio porque ama. E aquele que  tolo s  tolo porque pensa que pode entender o amor. - respondeu ele.
As outras pessoas na mesa ouviram o comentrio e no minuto seguinte, rebentou uma animada discusso sobre o amor. Todos tinham uma opinio formada, defendiam os seus pontos de vista com unhas e dentes, e vrias garrafas de vinho foram necessrias para fazer com que se acalmassem. Finalmente algum disse que j era tarde e que o dono do restaurante queria fechar.
- Teremos cinco dias de feriado - gritou algum de outra mesa. - Precisamos comemorar! Se o dono quer fechar o restaurante  porque vocs estavam a falar de assuntos srios!
Todos riram - menos ele.
- Onde  que deveamos ter conversas srias? perguntou ele ao bbado da outra mesa.
- Na igreja! - disse o bbado. E desta vez, o restaurante inteiro riu.
Ele levantou-se. Pensei que ia brigar, porque tnhamos todos voltado  adolescncia, onde as brigas fazem parte da noite - junto com os beijos as carcias em lugares proibidos, a msica alta e a velocidade.
NA MARCEM 1)0 RIO PlEDKA...       51
Mas tudo o que fez foi segurar a minha mo e dirir-se para a porta do restaurante.
-  melhor ns irmos - disse. - Est a ficar tarde.








hove em Bilbao, e chove no mundo. Quem ama precisa saber perder-se precisa saber encontrar-se. Ele est a conseguir equilibrar bem estas duas partes. Est alegre, e canta, enquanto voltamos para o hotel.
Son /os locos que inventarem el amor.
Embora ainda com a sensao do vinho e das cores fortes, vou aos poucos recuperando o meu equilbrio. Preciso manter o controlo da situao porque quero viajar nestes dias.
J que no estou apaixonada, ser fcil manter esse controlo. Quem  capaz de domar o seu corao  capaz de conquistar o mundo.
Con un poema y un tronbn a develarie e corazn, diz a letra.
Gostaria de no controlar o meu corao, penso. Se conseguisse entreg-lo, nem que fosse apenas por
NA MARGEM o Rio PIERA...      53
in fim-de-semana esta chuva que cai no meu rosto ria outro sabor. Se amar fosse fcil eu estaria abraada a ele e a letra da msica contaria uma histria Blue  a nossa histria. Se no existisse Saragoa de|bois dos feriados desejaria que o efeito da bebida lo passasse nunca seria livre de beij-lo acarici-
4o, dizer e ouvir coisas que s os apaixonados dizem entre si.
Mas no. No posso. No quero.
Salgamos a volar, uerida mia, diz a letra. Sim, vamos sair e voar. Dentro das minhas condies.
Ele no sabe que a minha resposta para o seu convite  sim. Por que quero correr este risco? Porque neste momento estou bbada e cansada dos meus dias iguais.
Mas este cansao vai passar. E vou querer voltar para Saragoa, a cidade que escolhi para morar. Os meus estudos esperam-me, um concurso pblico espera-me. Espera-me tambm um marido que preciso encontrar e que no ser difcil.
Espera-me uma vida sossegada com filhos e netos, com o oramento equilibrado e as frias anuais. No conheo os seus pavores, mas conheo os meus - e j aprendi a lidar com eles. No preciso de medos novos < bastam os que j tenho.
No poderia - nunca - apaixonar-me por algum como ele. Eu conheo-o bem demais vivemos juntos muito tempo, sei das suas fraquezas e dos seus te; ores. No consigo admir-lo como as outras pesioas.








54lAi'LO Coiil10
Eu sei que o amor e as represas so iguais: se se deixa uma brecha por onde um fio de gua se possa meter, aos poucos ele vai rebentando as paredes - e chega um momento em que ningum consegue mais controlar a fora da correnteza.
Se as paredes desmoronam o amor toma conta de tudo; j no interessa o que  possvel ou o que  impossvel, no interessa se podemos ou no manter a pessoa amada ao nosso lado - amar  perder o controlo.
No no posso deixar uma brecha. Por menor que seja.
- Uni momento!
Ele parou imediatamente de cantar. Passos rpidos ecoavam no cho molhado.
- Vamos - disse, agarrando o meu brao.
- Espere! - um homem gritava. - Preciso falar consigo!
Mas ele andava cada vez mais rpido.
- No  connosco - disse. - Vamos para o hotel. Era connosco: no havia mais ningum naquela rua. O meu corao disparou e o efeito da bebida desapareceu imediatamente. Lembrei-me que Bilbao era no Pas Basco e que os atentados terroristas eram frequentes. Os passos foram-se aproximando.
- Vamos - disse ele acelerando o passo. Mas era tarde. A figura de um homem, molhado dos ps  cabea, interpelou-nos.
- Parem, por favor! - disse o homem. - Pelo amor de Deus.
Eu estava apavorada, procurando um lugar para fugir, um carro de polcia que pudesse surgir como
NA MAKC,I:M lh1 RIO Pll;DKA.
0
n milagre. Instintivamente agarrei o seu brao as ele afastou as minhas mos. { - Por favor! - disse o homem.  Soube que estava ? cidade. Preciso da sua ajuda.  o meu filho!  O homem comeou a chorar e ajoelhou-se no cho.  - Por favor! - dizia. - Por favor!
Ele respirou fundo, baixou a cabea e fechou os olhos. Durante alguns momentos ficou em silncio e tudo o que podamos ouvir era o barulho da chuva misturado com os soluos do homem ajoelhado no
passeio.
- Vai para o hotel Pilar - disse, por fim. - E v se
dormes. S devo voltar ao amanhecer.








J amor  cheio de armadilhas. Quando se quer manifestar, mostra apenas a sua luz - e no nos permite ver as sombras que essa luz provoca.
- Olha a terra  nossa volta - disse ele. - Vamos deitar-nos no cho/ sentir o corao do planeta a bater.
- Daqui a pouco - respondi. - No posso sujar o nico casaco que trouxe comigo.
Caminhmos por montes plantados com oliveiras. Depois da chuva de ontem em Bilbao o sol desta manh dava-me a sensao de sonho. Eu no tinha culos escuros - no trouxera nada, porque ia voltar para Saragoa no mesmo dia. Tive de dormir com uma camisa que ele me emprestou; e comprei uma camisa interior na esquina do hotel para - pelo menos - poder lavar a que eu usava.
- Deves estar enjoado de me ver com a mesma roupa - digo eu, a brincar para ver se um assunto banal me traz de volta  realidade.
- Eu estou feliz porque tu ests aqui. Ele no tornou a falar de amor desde que me entregou a medalha, mas est bem-humorado, e parece








60    P'1-0 COELHO
que voltou aos dezoito anos. Anda ao meu lado tambm mergulhado na claridade desta manh.
- O que  que precisas de ir l fazer? - disse eu, apontando para as montanhas dos Pirenus no horizonte.
- Por detrs daquelas montanhas est a Frana respondeu sorrindo.
- Eu estudei geografia. Quero apenas saber por que  que precisamos de l ir.
Ele ficou algum tempo sem dizer nada sorrindo apenas.
- Para que tu vejas uma casa. Quem sabe/ interessas-te por ela.
- Se ests a pensar em ser corretor de imveis, esquece. Eu no tenho dinheiro.
Para mim tanto fazia ir at um povoado de Navarra ou ir at Frana. S no queria passar os feriados em Saragoa.
Ests a ver?, ouvi o meu crebro dizer ao meu corao. Ests satisfeita por teres aceite o convite. Mudaste e no percebes isso.
No, eu no mudei nada. Apenas relaxei um pouco.
- Repara nas pedras no cho.
So redondas sem arestas. Parecem seixos do mar. No entanto o mar nunca esteve aqui, nos campos de Navarra.
- Os ps dos trabalhadores, os ps dos peregrinos os ps dos aventureiros moldaram estas pedras disse ele. - Elas mudaram e os viajantes tambm.
- Foram as viagens que te ensinaram tudo o que sabes?








62PA L'LU COEl.Hl1
- No. Foram os milagres da Revelao. Eu no percebi, nem fiz por aprofundar a questo.
Estava imersa no sol, no campo, nas montanhas do
horizonte.
- Para onde  que nos dirigimos? - perguntei.
- Para lado nenhum. Estamos a aproveitar a manh, o sol, a bela paisagem. Temos uma longa viagem de carro pela frente.
Ele vacila por um momento, e pergunta:
- Guardaste a medalha?
- Guardei - digo e comeo a caminhar mais rpido. No quero que ele toque nesse assunto - pode estragar a alegria e a liberdade desta manh.
Aparece uma povoao. A maneira das cidades me dievais, ela est no topo de um morro e posso ver -  distncia - a torre da sua igreja e as runas de um castelo.
- Vamos at l - peco-lhe.
Ele hesita mas acaba por concordar. Existe uma capela no caminho e tenho vontade de l entrar. J no sei rezar, mas o silncio das igrejas sempre me tranquilizou.
No te sintas culpada digo para mim mesma. Se ele est apaixonado problema dele.
Ele perguntou pela medalha. Sei que estava  espera que eu voltasse  nossa conversa do caf. Ao mesmo tempo tem medo de ouvir o que no quer ouvir por isso no vai adiante, no toca no assunto.
A MAKGf:M DO RIO PlDRA.
63
| poe ser que ele me ame realmente. Mas conseInliremos transformar este amor em algo diferente
iais profundo. | Ridculo penso comigo mesma. No existe na-
da mas profundo que o amor. Nos contos infantis, as princesas beijam os sapos e eles transformam-se em prncipes. Na vida real as princesas beijam os prncipes e eles transformam-se em sapos.








JLJepois de quase meia-hora de caminhada chegmos  capela. Um velho estava sentado nos degraus.
E a primeira pessoa que vemos desde que comemos a andar - porque estamos no fim do Outono e os campos esto entregues ao Senhor que fertiliza a terra com a sua bno e permite que o homem arranque o sustento com o suor do rosto.
- Bom dia - disse ele ao homem.
- Bom dia.
- Como se chama aquela povoao?
- San Martin de Unx.
- Unx? - digo eu. - Parece nome de gnomo! O velho no percebe a brincadeira. Meio sem graa caminho at  porta da capela.
- No pode entrar - diz o velho. - Fechou ao meio-dia. Se quiser, pode voltar s quatro da tarde.
A porta est aberta. Vejo o seu interior - embora sem nitidez, por causa da claridade exterior.
- S um minuto. Gostava de fazer uma prece.
- Sinto muito. J est fechada.
NA MAKCEM 1)0 RIO PlDKA...      05
L Ele ouve a minha conversa com o velho. No diz nada.
||r - Est bem vamos embora - digo. - No adianta
IHiscutirmos.
| Ele continua a olhar para num, com um olhar vazio
laistante.
-. - Porqu? - pergunta-me. - No queres ver a capela?
Sinto que ele no gostou da minha atitude. Deve ter-me achado fraca cobarde incapaz de lutar pelo que quero. Sem que seja necessrio um beijo, a princesa transforma-se num sapo.
- Lembra-te de ontem - digo. - Tu deste por concluda a nossa conversa no restaurante porque no estavas com vontade de discutir. Agora, que fao a mesma coisa, repreendes-me.
O velho observa, impvido a nossa discusso. Deve estar contente por algo acontecer ali, diante dele, num lugar onde todas as manhs, todas as tardes e todas as noites so iguais.
- A porta da igreja est aberta - diz ele, dirigindo-
-se para o velho. - Se quer dinheiro, podemos dar-
-lhe algum. Mas ela quer ver a igreja.
-J passou da hora.
- Ento est bem. Vem. Ele pega-me pelo brao e entra comigo. O meu corao salta. O velho pode ficar agressivo, chamar a polcia estragar a nossa viagem.
*- - Por que  que ests a fazer isto?
- Porque tu queres ir  capela -  a resposta dele.
- Mas eu nem consigo ver bem o que est l dentro;
quela discusso - e a minha atitude - tirou todo o ncanto a uma manh quase perfeita.








66   PAULO COELHO
O meu ouvido est atento ao que se passa l fora a todo o momento imagino o velho saindo e a polcia da povoao a chegar. Invasores de capelas. Ladres. Esto a fazer algo proibido violam a lei. O velho disse que estava fechada, que j no era hora para visitas! Ele  um OL-r velho, incapaz de nos deter - e a polcia ser mais dura porque desrespeitmos um ancio.
Fico l dentro apenas o tempo suficiente para mostrar que estou  vontade. O meu corao continua a bater to fortemente, que tenho medo que ele o oia.
- Podemos ir - digo, depois do que imaginei ser o tempo i ecessrio para se rezar uma Ave-Maria.
- No tenhas medo Pilar. Tu no podes contracenar.
Eu no queria que o problema com o velho se tornasse num problema com ele. Precisava manter a calma.
- No sei o que  contracenar - respondo.
- Certas pessoas vivem zangadas com algum, zangadas consigo prprias, zangadas com a vida. Ento, elas comeam a criar uma espcie de pea de teatro nas suas cabeas, e escrevem o guio de acordo com as suas frustraes.
- Eu conheo muita gente assim. Sei do que falas.
- O pior porm,  que elas no podem representar essa pea de teatro sozinhas - continua. - Ento, comeam a convocar outros actores.
Foi o que o sujeto l fora fez. Queria vingar-se de alguma coisa e escolheu-nos para isso. Se tivssemos aceite a sua proibio, estaramos agora arrependidos e derrotados. Teramos aceite fazer parte da sua vida mesquinha e da. suas frustraes.
NA M A KG E 1)0 RIO PlEDRA.     S   67
 A agressividade deste senhor era visvel foi fcil evitar que contracenssemos. Outras pessoas no entanto convocam-nos quando comeam a comporE tar-se como vtimas, reclamando contra as injustias da vida, pedindo para que ns concordemos, aconselhemos participemos.
Ele olhou-me dentro dos olhos.
- Cuidado - disse. - Quando se entra nesse jogo sai-se sempre a perder.
Ele tinha razo. Mesmo assim eu sentia-me pouco  vontade ali dentro.
- J rezei. J fiz o que queria. Agora podemos sair. Samos. O contraste entre a escurido da capela e o sol forte l fora cega-me por instantes. Assim que os meus olhos se habituam, reparo que o velho j l no est.
- Vamos almoar - digo-lhe, andando em direco  cidade.








Debo dois copos de vinho ao almoo. Nunca bebi issim em toda a minha vda. Estou a ficar alcolica.
Que exagero
Ele conversa com o empregado de mesa. Descobre que existem vrias runas romanas nas redondezas. Procuro acompanhar ci conversa, mas no consigo esconder o meu mau-humor.
A princesa tornou-se num sapo. Que importncia tem isso? A quem preciso eu de provar o quer que seja, se no estou  procura de nada - nem homem, nem amor?
Eu j sabia, penso. Sabia que ia desequilibrar o meu mundo. O meu crebro avisou-me - e o meu corao no quis seguir o conselho.
Tive que pagar um preo alto para conseguir o pouco que tenho. Precisei renunciar a tantas coisas que desejava, abrir mo de tantos caminhos que apareceram  minha frente. Sacrifiquei os meus sonhos em nome de um sonho maior - a pa de esprito. No quero abrir mo desta paz.
/,                                ())
- Ests tensa - diz ele, interrompendo a conversa com o empregado.
- Sim, estou. Penso que aquele velho foi chamar a polcia. Penso que esta cidade  pequena e eles sabem onde estamos. Penso que a tua teimosia em almoar aqui pode acabar com os nossos feriados.
Ele fica a girar o copo de gua mineral. Deve saber que no  nada disso - que, na verdade, estou  envergonhada. Por que fazemos isto com as nossas vidas? Porque ser que vemos o cisco no olho e no vemos as montanhas, os campos e as olivei-
ras?
- Escuta: no vai acontecer nada disso - diz ele. O velho j voltou para a sua casa e j nem se lembra do episdio. Confia em mim.
No estou tensa por isso seu tonto, penso.
- Ouve mais o teu corao - continua ele.
- E precisamente isso: estou a ouvi-lo - respondo.
- E prefiro sair daqui. No estou  vontade.
- No bebas mais durante o dia. No ajuda nada. At quele momento, eu estava a controlar-me. Agora,  melhor dizer tudo aquilo que preciso.
- Tu achas que sabes tudo - digo. - Que entendes de instantes mgicos, de crianas interiores. No sei o que fazes ao meu lado.
Ele ri.
- Eu admiro-te - diz ele. - E admiro a luta que travas com o teu corao.
- Que luta?
- Nada - responde.
Mas eu sei o que ele quer dizer.







70     PAL'LO COELHO
- No te iludas - respondo. - Se tu quiseres, podemos falar sobre isso. Tu ests enganado a respeito dos meus sentimentos.
Ele pra de girar o copo e encara-me:
- No estou. Sei que tu no me amas.          ;
Aquilo deixa-me ainda mais desorientada.
- Mas vou lutar por isso - continua. - Existem coisas na vida pelas quais vale a pena lutar at ao fim. As palavras dele deixam-me sem resposta.
- Tu vales a pena - diz ele.
Eu olho para outro lado e procuro fingir que estou interessada na decorao do restaurante. Sentia-me um sapo mas agora volto a ser uma princesa.
Quero acreditar nas suas palavras, penso enquanto olho para um quadro de pescadores e barcos. No vai mudar nada, mas pelo menos no me vou sentir to fraca, to incapaz.
- Desculpa a minha agressividade - digo. Ele sorri, chama o empregado e paga a conta.
O caminho de volta faz-me sentir ainda mais confusa. Pode ser do sol - mas no,  Outono, e o sol no aquece nada. Pode ser o velho - mas o velho j saiu da minha vida h muito tempo.
Pode ser de tudo aquilo que  novo. Todo o sapato novo incomoda. A vida no  diferente: apanha-nos des prevenidos e obriga-nos a caminhar para o desconhecido
- quando no queremos, quando no precisamos.
Tento concentrar-me na paisagem, mas j no consigo ver os campos de oliveiras, a cidadezinha no
NA MARGM 1)0 RIO P l E) KA.
S71
tonte, a capela que tinha um velho  porta. Nada '.isto me  familiar. Lembro-me da bebedeira de ontem e da msica
'ue ele cantava:
Ls tardicitas de Buenos Aires tienen este no s... f   que syo?
/    Viste, sali de tu casa, por Arenales...
T
/ /    Porqu Buenos Aires se estvamos em Bilbao? Que
rua  esta, Arenales? O que  que ele queria?
J      - Que msica  aquela que tu cantaste ontem  noi-
|     te? - pergunto.
- Balada para Um Louco - diz ele. - Por que  que s perguntaste hoje?
- Por nada - respondo.
Mas sim, h um motivo. Sei que ele cantou essa msica porque  uma armadilha. Ele fez-me decorar a letra - e eu tenho que decorar as matrias para a -;    prova. Podia ter cantado uma msica conhecida, que l    eu j tivesse ouvido milhares de vezes - mas preferiu |   algo que eu nunca tinha ouvido. \   E uma armadilha. Assim, mais tarde, quando esta \ msica aparecer na rdio ou num disco, eu vou i lembrar-me dele, de Bilbao, da poca em que o Ouitono da minha vida se transformou de novo em Priinavera. Eu vou lembrar-me da excitao, da aventura |c da criana que renasceu sabe Deus de onde. | Ele pensou nisto tudo. Ele  sbio, experiente, |Vivido e sabe como conquistar a mulher que deeja.







72 PA f 1.0 COELHO
Estou a ficar louca, digo para mim mesma. Acho que sou alcolica porque bebi dois dias seguidos. Acho que ele sabe todos os truques. Acho que me controla e me governa com a sua doura.
Admiro a luta que travas com o teu corao, disse ele no restaurante.
Mas est enganado. Porque j lutei e venci o meu corao h muito tempo. No me vou apaixonar pelo impossvel.
Eu conheo os meus limites e a minha capacidade de sofrer.
- Diz qualquer coisa - peco-lhe, enquanto regressa-
mos ao carro.
- O qu?
- Qualquer coisa. Conversa comigo.
Ele comea a contar-me algo sobre as aparies da Virgem Maria em Ftima. No sei de onde tirou esse assunto - mas consigo distrair-me com a histria dos trs pastorinhos que com Ela conversaram.
Aos poucos, o meu corao sossega. Sim, eu conheo bem os meus limites e sei controlar-me.
(hegmos de noite, com uma nvoa to forte que mal dava para distinguir onde estvamos. Eu via apenas uma pequena praa, um lampio, algumas casas medievais mal iluminadas pela luz amarela e um poo.
- A nvoa! - disse ele, excitado. Fiquei sem perceber.
- Estamos em Saint-Savin - completou. O nome no me dizia nada. Mas estvamos em Frana e isso deixava-me excitada.
- Porqu este lugar? - perguntei.
- Por causa da casa que te quero vender - respondeu, rindo. - Alm disso, prometi que voltava no dia da Imaculada Conceio.
- Aqui?
- Aqui perto.
Ele parou o carro. Quando samos, deu-me a mo e comemos a caminhar pelo meio da nvoa.
- Este lugar entrou na minha vida sem que eu esperasse - disse ele.







74   PAULO COELHO
Tu tambm, pensei.
- Aqui, um dia - achei que tinha perdido o meu caminho. E no era bem assim: na verdade, eu tinha-o reencontrado.
- Falas por enigmas - disse eu.
- Foi aqui que eu percebi o quanto tu fazias falta na minha vida.
Eu voltei a olhar em torno de ns. No podia compreender porqu.
- O que  que isso tem a ver com o teu caminho?
- Vamos arranjar um quarto, porque os dois nicos hotis desta cidadezinha s funcionam no Vero. Depois jantaremos num bom restaurante - sem tenso, sem medo da polcia sem precisar de voltar a correr para o carro.
E, quando o vinho soltar as nossas lnguas conversaremos muito.
Rimos juntos. Eu j estava mais relaxada. Durante a viagem dera-me conta da tolice que tinha pensado. Enquanto cruzvamos a cadeia de montanhas que separa a Frana da Espanha, pedi a Deus que lavasse a minha alma da tenso e do medo.
J estava cansada de fazer aquele papel infantil, agindo como muitas das minhas amigas - que tinham medo do amor impossvel e nem sequer sabiam bem o que era o amor impossvel. Se continuasse assim, ia perder tudo aquilo de bom que aqueles poucos dias juntos me podiam dar.
Cuidado, pensei. Cuidado com a brecha na represa. Se ela surgir, nada neste mundo conseguir fech-la.
NA MARGEM no Rio PIEDRA...     75
l - Que a Virgem nos proteja daqui por diante - disse
ele.
Eu no respondi.
- Porque  que no disseste amen? - perguntou.
- Porque j no acho importante. Houve uma poca em que a religio fazia parte da minha vida - mas
esse tempo passou.
Ele deu meia-volta e comemos a andar de volta
para o carro.
- Ainda rezo - continuei. - Fiz isso enquanto cruzvamos os Pirenus. Mas  algo automtico, nem sei se confio muito.
- Porqu?
- Porque sofri e Deus no me ouviu. Porque - muitas vezes na minha vida - tentei amar com todo o meu corao e o amor acabou pisado, trado. Se Deus  amor, devia ter cuidado melhor dos meus sentimentos.
- Deus  amor. Mas quem entende bem do assunto
 a Virgem.
Eu desatei a rir. Quando voltei a olhar para ele vi que estava srio - no fora uma piada.
- A Virgem entende o mistrio da entrega total continuou ele. - E, por ter amado e sofrido libertou-nos da dor. Da mesma maneira que Jesus nos libertou
do pecado.
- Jesus era o filho de Deus. A Virgem foi apenas uma E mulher que teve a graa de receblo no seu ventre respondi. Estava a tentar reparar a risota fora de horas, queria que ele soubesse que eu respeitava a sua f.
I   Mas f e amor no se discutem, principalmente numa linda cidadezinha como esta.







76 PA'I.U CHI.HO
Ele abriu a porta do carro e pegou nas duas malas. Quando tentei pegar na minha bagagem ele sorriu 
- Deixa-me levar a tua mala - disse H quanto tempo ningum me trata assim pensei| Batemos na primeira porta; a mulher disse que nc
alugava quartos. Na segunda porta ningum vei<( atender. Na terceira, um velhnho gentil recebeu-no" bem - mas quando vimos o quarto, s havia uma| cama de casal. Eu recusei                      ri
- Talvez seja melhor irmos para uma cidade maior
- sugeri, quando samos.
- Vamos conseguir um quarto - respondeu ele. Conheces o exerccio do Outro? Ele faz parte de uma histria escrita h cem anos atrs, cujo autor...
- Esquece o autor e conta-me a histria - peo, en | quanto andamos pela nica praa de Saint-Savin '
- Um sujeito encontra um velho amigo seu, o qual vivej constantemente a tentar acertar na vida - sem resultado. | Vou ter que lhe dar algum dinheiro, pensa. Acontece que, naquela note, descobre que o seu velho amigo esta l rico e veio para pagar todas as dvidas que tinha contrado no decorrer dos anos.
Vao at um bar que costumavam frequentar juntos, e  ele paga a bebida a todos. Quando lhe indagam a rao dei tanto xito, responde que at ha dias atras, estava a viver ci_ Outro.                                             |
(L
- O que  o Outro? - perguntam todos.            ''J - O Outro  aquele que me ensinaram a ser, mas que no sou eu. O Outro acredita que a obrigao do homem \ passar a vida inteira a pensar como juntar dinheiro para  no morrer de fome quando ficar velho. Tanto pensa, e tanto }
NA w;) />(' A/' Pil:i)KA...        77
planos, que s descobre ue esta vivo quando os seus S na Terra esto quase a acabar. Mas a  tarde demais.
-  voe c quem ?
- Eu sou o que qualquer um de ns , se ouvir o seu '.ao. Uma pessoa que se deslumbra diante do mistrio  vida, que sta aberta para os milagres, que sente com eria e entuiasmo aquilo que faz. S que o Outro, com medo de se decepcionar, no me deixava agir. . - Mas existe sofrmento - dizem as pessoas no bar.
- Existem derrotas. Mas ningum escapa delas. Por isso,  melhor perder alguns combates na luta plos seus snhos, que ser derrotado sem sequer saber por que est
lutando.
- S isso? - perguntam as pessoas no bar. - Sim. Quando descobri isto, acordei decidido a ser o ue realmente sempre desejei. O Outro ficou ali, no meu quarto, a olhar para mim, mas no o deixei mais entrar embora tenha procurado assustar-me algumas vees, alertando-me para os riscos de no pensar no futuro.
A partir do momento em que expulsei o Outro da minha vida, a energia Divina operou os seus milagres.
Acho que ele inventou esta histria. Pode ser bonita, mas no  verdadeira, pensei, enquanto coninuvamos  procura de um lugar para ficar. SamtSavin no tinha mais do que trinta casas, e em breve ramos que fazer o que eu j tinha sugerido - ir para
4ma cidade maior.
f Por muito entusiasmo que ele tivesse, por mais que  Outro j estivesse longe da sua vida, os habitantes







78   PAULO COELHO
de Saint-Savin no sabiam que o seu sonho era dormir ali naquela noite e no iam ajudar em nada. Entretanto, enquanto ele contava a histria parecia que me via a mim prpria. Os medos a insegurana, a vontade de no ver tudo o que  maravilhoso - porque amanh pode acabar e vamos sofrer.
Os deuses jogam dados e no perguntam se queremos participar no jogo. No querem saber se deixmos um homem uma casa um trabalho, uma carreira, um sonho. Os deuses no ligam para o facto de que temos uma vida onde cada coisa tem o seu canto, onde cada desejo pode ser conseguido com trabalho e persistncia. Os deuses no levam em conta os nossos planos, as nossas esperanas; em algum lugar do universo eles jogam os dados - e voc por acaso,  escolhida. A partir da, ganhar ou perder  uma questo de chance.
Os deuses jogam os dados e libertam o Amor da sua jaula. A fora que pode criar ou dstruir - dependendo da direco que o vento soprava no momento em que ela saiu da priso.
Por enquanto esta fora estava a soprar para o lado dele. Mas os ventos so to caprichosos como os deuses - e, no mais fundo do meu ser, eu comeava a sentir algumas rajadas.
(omo se o destino me quisesse mostrar que a histria do Outro era verdadeira - e o universo sempre conspira a favor dos sonhadores - encontrmos uma casa para ficar - o quarto tinha duas camas separadas. A minha primeira providncia foi tomar um banho lavar a minha roupa e vestir a camisa que tinha comprado. Senti-me como nova - e isso deixou-me segura.
Quem sabe, a Outra no gosta desta camisa ri para mim mesma.
Depois de jantarmos com os donos da casa - os restaurantes tambm estavam fechados no Outono e no Inverno - ele pediu uma garrafa de vinho prometendo comprar outra no dia seguinte
Vestimos os casacos pegmos em dois copos emprestados e samos.
- Vamos sentar-nos na beira do poo - disse eu. Ficmos ali, a beber para afastar o frio e a tenso.
- Parece que o Outro voltou a encarnar em ti brinquei. - O teu humor piorou. Ele riu.







8 PAL'LO COLHO
- Disse que amos conseguir um quarto e conse- ;
guimos. O Universo ajuda-nos sempre a lutar plos j nossos sonhos por mais idiotas que possam parecer. Porque so os nossos sonhos, e s ns sabemos o quanto custa sonh-los.
;
A nvoa - que o lampio coloria de amarelo - no nos deixava ver bem o outro lado da praa Respirei fundo. O assunto j no podia ser evitado..
- Ficmos de falar de amor - continuei. - No p- 'E demos mais evit-lo. Tu sabes como eu tenho passa- l do estes dias.                                   s
Por mim este assunto nem teria surgido. Mas - i uma vez que surgiu - no consigo deixar de pensar  nele                                          j
- Amar  perigoso                          f
- Eu sei disso - respondi. - J amei antes. Amar  t como uma droga. No princpio vem a sensao de | euforia, de total entrega. Depois no dia seguinte, tu l queres mais. Ainda no te viciaste, mas gostaste da | sensao e achas que podes mante-la sob controlo. ] Pensas durante dois minutos nela e esqueces por trs horas.                                          |
Mas aos poucos acostumas-te com aquela pessoa, f e passas a depender completamente dela. Ento pensas por trs horas e esqueces por dois minutos. Se ela no est perto, experimens as mesmas sensaces que os viciados tm quando no conseguem arranjar a droga. Nesse momento, assim como os viciados roubam e se humilham para conseguir o que precisam, tu ests disposto a fazer qualquer coisa pelo i amor.                                         l
NA MARGM DO RIO PlEDKA...      81
- Que exemplo horrvel - disse ele. , Era realmente um exemplo horrvel que no combinava com o vinho com o poo com as casas medievais em torno da pequena praa. Mas era verdade. Se ele tinha dado tantos passos por causa do amor precisava conhecer os riscos.
- Por isso, s devemos amar quem podemos ter por perto - conclu.
Ele ficou um longo tempo a olhar para a nvoa. Dava a sensao de que j no ia pedir para navegarmos pelas guas perigosas de uma conversa sobre o amor. Eu estava a ser dura mas no havia outra alternativa.
Encerrmos o assunto, pensei. A convivncia de trs dias - e ainda por cima com ele a ver-me sempre com a mesma roupa - foi suficiente para faz-lo mudar de ideias. O meu orgulho de mulher sentiu-se ferido, mas o corao bateu mais aliviado.
Ser que  isto mesmo que eu quero? pensei.
Porque eu comeava a sentir as tempestades que os ventos do amor trazem consigo. Eu comeava j a sentir um furo na parede da represa.
Ficmos um longo tempo a beber, sem conversar sobre coisas srias. Comentmos sobre os donos da casa e o santo que fundou aquela povoao. Ele contou-me algumas lendas sobre a igreja do outro lado da praa - e que eu mal conseguia distinguir, por causa da nvoa.
- Ests distrada - disse ele a certa altura. Sim, a minha mente voava. Gostaria de estar ali com algum que me deixasse o corao em paz, com






82  PAULO COELHO
algum com quem pudesse viver aquele momento sem medo de o perder no dia seguinte. Ento o tempo passaria mais devagar, poderamos ficar em silnci
- j que teramos o resto da vida para conversar. EU no precisaria de me estar a preocupar com assunto srios decises difceis, palavras duras          j
i
Estamos em silncio - e isso  um sinal. Pela primeira vez estamos em silncio, embora s o tenha percebido agora quando ele se levantou para ir buscar mais uma garrafa de vinho.
Estamos em silncio. Oio o rudo dos seus passos voltando at ao poo onde estamos juntos h mais de uma hora, a beber e a olhar a nvoa.
Pela primeira vez estamos em silncio de verdade. No  o silncio constrangedor do carro, quando viajmos de Madrid para Bilbao. No  o silncio do meu l corao com medo quando o ouvia dentro da capela perto de San Martin de Unx.
1  um silncio que fala. Um silncio que me diz que .10 precisamos de explicar coisas um ao outro. Os seus passos pararam. Ele est a olhar para mim e deve ser lindo aquilo que ele est a ver: uma ulher sentada  beira de um poo numa noite de /voa,  luz de um lampio. As casas medievais a igreja do sc. XI e o silncio.






segunda garrafa de vinho j est quase a meta de, quando resolvo falar.                       |
- Hoje de manh, quase que me convencia de qu. sou alcolica. Bebo o dia inteiro. Nestes trs dias beb'[ mais do que em todo o ano passado             'f
Ele passa a mo na minha cabea, sem dizer nada Eu sinto o seu toque, e nada fao para afast-lo   i
- Conta-me um pouco da tua vida - peco-lhe.
- No tem grandes mistrios. Existe o meu caminh e eu fao o possvel por percorr-lo com dignidade. |
- Qual  o teu caminho?                   \
- O caminho de quem procura o amor.        i Ele fica, por um momento, a brincar com a garraf quase vazia.
- E o amor  um caminho complicado - conclui.
- Porque nesse caminho, ou as coisas nos leva| ao cu, ou nos lanam no inferno - digo, sem ter certeza de que ele se est a referir a mim.        j
Ele no diz nada. Talvez ainda steja mergulha
no oceano do silncio, mas o vinho soltou outra vezl

minha lnua, e sinto a necessidade de falar.
NA M  KC. i M /) R i n P i r: D RA...       85
- Tu disseste que algo nesta cidade mudou o teu rumo. i - Acho que mudou. No tenho ainda a certeza S por isso quis trazer-te at aqui. ?     um teste?
- No.  uma entrega. Para que ela me ajude a tomar a mlhor deciso.
- Quem?
- A Virgem.
A Virgem. Eu devia ter deduzido. Fico impressionada ao ver como tantos anos de viagens, de descobertas, de novos horizontes, no o tenham conseguido libertar do catolicismo da infncia. Pelo menos nisso, eu e os nossos amigos, tnhamos evoludo muito - j no vivamos mais sob o peso da culpa e dos pecados.
- E impressionante que, depois de tudo o que tu passaste, ainda mantenhas a mesma f.
- No mantive. Perdi e recuperei.
- Mas em Virgens? Em coisas impossveis e fantasiosas? No tiveste uma vida sexual activa?
- Normal. Apaixonei-me por muitas mulheres. Sinto uma ponta de cimes e fico surpreendida com a minha reaco. Mas a luta interior parece ter acalmado e no quero voltar a despert-la.
- Por qu  que ela  A Virgem? Por que  que
o nos mostram Nossa Senhora como uma mulher
normal, igual a todas?
Ele acaba coin o pouco que resta da garrafa. PergunI -me se quero que v buscar mais, e eu digo que no. | "  Quero  que tu me respondas. Sempre que co( amos a falar de certos assuntos, tu comeas a falar |e outras coisas.





86   PAULO COELHO
- Ela foi normal. Teve outros filhos. A Bblia du -nos que Jesus teve mais dois irmos.
A virgindade na concepo de Jesus deve-se a u outro facto: Maria inicia uma nova era de graa. comea outra etapa. Ela  a noiva csmica, a Terra que se abre para o cu e se deixa fertilizar
Nesse momento, graas  sua coragem de aceit o seu prprio destino, ela permite que Deus venha Terra. E transforma-se na Grande Me.
Eu no estou a conseguir seguir as palavras de] E ele apercebe-se disso                         t
- Ela  o rosto feminino de Deus. Ela tem a su prpria divindade.                            |
As suas palavras saem tensas, quase foradas( como se estivesse a cometer um pecado
- Uma deusa? - pergunto Espero um pouco, para que ele me explique melho mas ele no segue adiante com a conversa. H pouco minutos atrs, eu pensava com ironia no seu catolida| mo. Agora, as palavras dele pareciamme blasfmia j
- Quem  a Virgem? O que  a Deusa? - sou e quem puxa pelo assunto outra vez.             t
-  difcil explicar - disse ele, cada vez mais descol fortvel. - Tenho algumas coisas escritas comigo. S| quiseres, podes ler.
- No vou ler nada agora, quero s que tu me e pliques - insisto
Ele procura a garrafa de vinho, mas ela est vj zia. J nem nos lembramos do que nos levou at a<| poo. Algo de importante est presente - como s<( as palavras dele tivessem produzido um milagre.t
NA MARGEM DO RIO PlED RA...      87
t - Continua a falar - volto a insistir.
  O seu smbolo  a gua, a nvoa  sua volta. A
usa usa a gua para se manifestar.
? A bruma parece ganhar vida e transformar-se em
HO sagrado - embora eu continue sem saber bem o
iue ele est a dizer.
- No te quero falar de histria. Se quiseres saber mais a este respeito, podes ler no texto que trouxe
l comigo. Mas fica sabendo que esta mulher - a Deusa, a Virgem Maria, a Shechinah judaica, a Grande Me, sis, Sofia, serva e senhora - est presente em todas as religies da Terra. Foi esquecida, foi proibida, foi disfarada, mas o seu culto prosseguiu de milnio em milnio e chegou aos dias de hoje.
Uma das faces de Deus  a face de uma mulher. Olhei para o seu rosto. Os seus olhos brilhavam e estavam fixos na nvoa  nossa frente. Vi que no precisava insistir mais para que ele continuasse.
- Ela est presente no primeiro captulo da Bblia quando o esprito de Deus paira sobre as guas e Ele as coloca em baixo e em cima das estrelas. E o casamento mstico da Terra com o Cu.
Ela est presente no ltimo captulo da Bbla quando
i o Esprito e a noia dizem: Vem. Aquele que ouve, diga: Vem.
Auele que tem sede vem
? e quem uiser, eceba de raa a gua da vida.
 - Por que  que o smbolo da face feminina de Deus a gua?





88  PAULO COELHO
- No sei. Mas ela geralmente escolhe esse me para se manifestar. Talvez por ser a fonte da vid somos gerados no meio da gua durante nove me permanecemos nela.                         ::
A gua  o smbolo do Poder da mulher, o poC que nenhum homem - por mais iluminado ou pf feito que seja - pode almejar.
Ele pra por um momento mas retoma logo a CG.'
versa.                                      ,
- Em cada religio e em cada tradio ela mart festa-se de uma maneira ou de outra - mas manifest' -se sempre. Como sou catlico consigo v-la quanc estou diante da Virgem Maria.                 '
Pega-me nas mos e, em menos de cinco minutos samos de Saint-Savin. Passamos por uma coluna i estrada - com algo estranho em cima: uma cruz e' imagem da Virgem no lugar onde devia estar Jesu(' Cristo. Lembro-me das palavras dele e surpreend -me com a coincidncia                       f





Agora estamos completamente envoltos pela es curido e pela bruma. Comeo a imaginar-me ni gua, no ventre materno - onde o tempo e o pensa mento no existem. Tudo o que ele diz parece fazd sentido um sentido terrvel. Lembro-me da senhor na conferncia. Lembro-me da rapariga que me lev at  praa. Tambm ela me disse que a gua era ( smbolo da Deusa.                            a
- A 20 km daqui existe uma gruta - continua. - 
11 de Fevereiro de 1858 uma menina apanhava lenha ali perto com outras duas crianas. Era uma menina frgil asmtica, cuja pobreza chegava  beira ds misria. Naquele dia, de Inverno teve medo d atravessar um pequeno riacho; podia molhar-se fie doente, e os seus pais precisavam do pouco dinheilj que ganhava como pastora.
Foi ento que uma mulher vestida de branco co duas rosas douradas nos ps apareceu. Tratou menina como se fosse uma princesa pediu por favo para que ela ali voltasse um determinado nmero de
NA MARGEM DO RO PlERA...      91
rezes e desapareceu. As outras duas crianas, que a tinham visto em transe espalharam logo a histria.  A partir da, comeou um longo calvrio para ela. oi presa e exigiram que ela negasse tudo. Foi tentada com dinheiro para que pedisse favores especiais  i pario. Nos primeiros dias a sua famlia era insul/ tada em praa pblica - diziam que ela fazia tudo
 aquilo para chamar a ateno.
t   A menina - que se chamava Bernadette - no fazia a menor ideia do que estava a ver. Chamava a tal senhora de Aquilo e os seus pais aflitos, foram procurar socorro junto do padre da aldeia. O padre sugeriu que na prxima apario ela perguntasse o
nome da tal mulher.
Bernadette fez o que o padre mandara, mas a resposta foi apenas um sorriso. Aquilo apareceu num total de 18 vezes a maior parte delas sem dizer nada. Numa dessas vezes, pede para que a menina beije a terra. Mesmo sem entender, Bernadette faz o que Aquilo manda. Um dia, pede para a menina cavar um buraco no cho da gruta. Bernadette obedece e logo aparece um pouco de gua lamacenta - porque
i ali eram guardados porcos.
\   - Beba esta agua - diz a senhora. \  A gua est to suja que Bernadette apanha-a e deita-a fora por trs vezes, sem coragem de a levar  : boca. Mas acaba por obedecer embora repugnada. No lugar onde cavou o buraco, comea a jorrar mais gua. Um homem cego de um olho passa algumas | gotas dessa gua no rosto e recupera a viso. Uma jmulher, desesperada porque o seu filho recm-nas-





92   PAULO COELHO
eido estava a morrer, mergulha o menino na fonte' num dia em que a temperatura tinha cado abaixo c zero. O menino ficou curado.
Aos poucos a notcia espalha-se e milhares de p soas comeam a acorrer ao local. A menina contin a insistir em saber o nome da senhora, mas ela aper sorri                                        l
At que um belo dia Aquilo vira-se para Berrt dette e diz:
- Eu sou a Imaculada Conceio.
Satisfeita a menina corre a contar ao proco.    3
- No pode ser - diz ele. - Ningum pode ser a| rvore e o fruto ao mesmo tempo minha filha. V l e deite-lhe gua benta.
Para o padre, apenas Deus pode existir desde o princpio - e Deus, ao que tudo indica  homem.
Ele faz uma longa pausa.                    4
- Bernadette deita a gua benta Aquilo. A Apa rio sorri com ternura e nada mais.             .
No dia 16 de Julho, a mulher aparece pela ltim| vez. Pouco depois, Bernadette entra para um coiw vento sem saber que tinha mudado por completo t| destino daquela pequena aldeia ao lado da gruta. A fonte continua a jorrar e os milagres sucedem-se.
A histria corre primeiro por Frana e depois pel< mundo inteiro. A cidade cresce e transforma-se. O comerciantes chegam e comeam a ocupar o loca] Abrem-se hotis. Bernadette morre e  enterrad longe dali sem saber o que est a acontecer      
Algumas pessoas, para colocar a Igreja em dificuldades - j que nesta altura o Vaticano admite as
NA MARM DO RIO PlE RA...      93
paries - comeam a inventar milagres falsos que 'epois so desmascarados. A Igreja reage com rigor:
partir de determinada data, s aceita como milagres sfenmenos que so submetidos a uma srie de rigosos exames feitos por juntas mdicas e cientficas. Mas a gua continua a jorrar e as curas multipli-
leam-se.
Parece que oio alguma coisa perto de ns. Sinto medo mas ele no se mexe. A nvoa agora tem vida e tem histria. Fico a pensar em tudo o que ele est a dizer e na pergunta cuja resposta no percebi: como
 que sabes tudo isto?
Fico a pensar na face feminina de Deus. O homem a meu lado tem a alma cheia de conflitos. Ainda h uns tempos escreveu-me a dizer que queria entrar para um seminrio catlico; mas acha que Deus tem
uma face feminina.
Ele fica quieto. Eu continuo a sentir-me no ventre da Me Terra, sem tempo e sem espao. A histria de Bernadette parece desenrolar-se diante dos meus olhos, na bruma que nos envolve.
Ento ele volta a falar:
l - Bernadette no sabia de duas coisas importanhssimas - diz. - A primeira eraque antes de a religio l crist chegar aqui estas montanhas eram habitadas pelos celtas - e a Deusa era a principal devoo dessa | cultura. Geraes e geraes entendiam a face feminina de Deus e compartilhavam do Seu amor e da Sua glria.





94  PAULO COELHO
- E a segunda?                           
- A segunda era que, pouco antes de BernadetfiB ter as suas vises as altas autoridades do Vatican reuniram-se secretamente.                    .
Quase ningum sabia o que se passava naquela reunies - e de certeza que o padre da aldeia cB Lourdes no fazia igualmente a menor ideia. A al cpula da Igreja Catlica estava a decidir se devia o no declarar o dogma da Imaculada Conceio   m
0 dogma acabou por ser declarado, atravs d bula papal Ineffablis Deus. Mas sem esclarecer exaci tamente, para o grande pblico o que isso significa v.
- E o que  que tu tens a ver com isso tudo? - perl gunto.
- Eu sou Seu discpulo. Eu tenho aprendido com Ela. - diz, sem saber que tambm est a dizer a font de tudo o que sabe.
- Tu v-La?                                  'l
- Sim.
X
Voltmos para a praa e percorremos os poucos metros que nos separavam da igreja. Vejo o poo a luz do lampio e a garrafa com os dois copos na borda. Ali devem ter estado dois namorados penso. Em silncio enquanto os coraes falavam entre si. E depois dos coraes terem dito tudo comearam a compartilhar os grandes mistrios.
Mais uma vez, nenhuma conversa sobre o amor aconteceu. No importa. Sinto que estou perante algo , de muito srio e tenho que aproveitar para compreens der tudo o que puder. Por momentos lembro-me dos estudos, de Saragoa, do homem da minha vida que \ pretendo encontrar - mas isso agora parece-me distante envolvido na mesma bruma que se espalha por
aint-Savin. l - Por que  que me contaste toda esta histria da
,3emadette? - pergunto.
i - No sei o motivo exacto - responde ele sem me >lhar nos olhos. - Talvez porque estamos perto de urdes. Talvez porque depois de amanh seja o dia





96  PULO COELHO
da Imaculada Conceio. Talvez porque eu quei mostrar-te que o meu mundo no  to solitria louco como pode parecer.
Outras pessoas fazem parte dele. E acreditam ]
que ele diz.                                    ;
- Nunca disse que o teu mundo  louco. TaN louco seja o meu: gasto o tempo mais importante minha vida atrs de cadernos e estudos, os quais n me vo fazer sair de um lugar que eu j conheo l Senti que ele estava mais aliviado: eu compreendia Esperei que ele continuasse a falar da Deusa ma[
virou-se para mim e disse:
- Vamos dormir. Bebemos muito.           '
s
TERA-FEIRA, 7 DE DEZEMBRO DE 193





/


"
f    Ele adormeceu logo. Eu fiquei um longo tempo  acordada a pensar na neblina na praa l fora no l  vinho e na conversa. Li o manuscrito que ele me emprestou e senti-me feliz; Deus - se realmente existisse |  - era Pai e Me.
t    Depois, apaguei a luz e fiquei a pensar no silncio | junto ao poo. Foi durante aqueles momentos em que l no conversmos, que me apercebi do quanto estava | prxima dele.
Nenhum de ns tinha dito nada.  desnecessrio l conversar sobre o amor, porque o amor tem a sua \ prpria voz e fala por si s. Naquela noite,  beira do POO, o silncio permitiu que os nossos coraes se proximassem e se conhecessem melhor. Ento, o ,-ieu corao ouviu o que o corao dele dizia e sentiu> feliz.
; Antes de fechar os olhos, resolvi fazer o que ele tamava exerccio do Outro. / Estou aqui neste quarto, pensei. Longe de tudo ,uilo a que estou acostumada, tenho conversas sobre





100   PAULO COELHO
coisas s quais nunca dei muito interesse e dunr numa cidade onde jamais coloquei os ps. Posso fine
- por alguns minutos - que sou diferente
Comecei a imaginar de que maneira gostaria f estar a viver naquele momento. Eu gostaria de es alegre curiosa feli. A viver intensamente ca instante a beber com sede da gua da vida. Confl' novamente nos sonhos. Capaz de lutar pelo que qu( ria.                                         \
Amar um homem que me amava          j
Sim esta era a mulher que eu gostaria de ser - ' que de repente aparecia e transformava-se em mui
Senti que a minha alma se inundava com a luz d' um Deus - ou uma Deusa - no qual no acredita mais. E senti que naquele momento a Outra deixa o meu corpo e sentava-se num dos cantos do pequen quarto                                     t
Eu olhava para a mulher que tinha sido at ent fraca tentando dar a impresso de ser forte. Co, medo de tudo, mas dizendo a si prpria que no ',' medo - era a sabedoria de quem conhece a realidad Construindo paredes nas janelas por onde penetrav-," a alegria do sol - para que os seus mveis velhos rui ficassem desbotados                         f
Vi a Outra sentada no canto do quarto - frg cansada desiludida. Controlando e escravizanaquilo que devia estar sempre em liberdade: os se( sentimentos. Tentando julgar o amor futuro p, sofrimento passado
O amor  sempre novo. No importa que amemC uma, duas dez ve?es na vida - estamos sempre diri
NA MARGEM no RIO PlERA...      101
e uma situao que no conhecemos. O amor pode var-nos ao inferno ou ao paraso, mas leva-nos mpre a algum lugar.  preciso aceit-lo porque ele
o alimento da nossa existncia. Se nos recusamos 'norremos de fome enquanto vemos os ramos careados da rvore da vida sem coragem para esitender a mo e colher os frutos.  preciso procurar o  amor onde ele estiver mesmo que isso signifique horas dias semanas de decepo e tristeza. f    Porque no preciso momento em que partirmos em ! busca do amor, tambm ele parte ao nosso encontro. |    E salva-nos.
Quando a Outra se afastou de mim, o meu corao voltou a falar comigo. Contou-me que a brecha na parede do dique deixava passar uma correnteza os ventos sopravam em todas as direces e ele estava feliz, porque eu ouvia-o novamente.
O meu corao dizia-me que eu estava apaixonada. E eu adormeci contente, com um sorriso nos lbios.





NA MAKC,:.\I 1)0 RIO PlEDKA...        103
Q.;                         (
uando acordei, a janela estava aberta, e ele olha       v para as montanhas l fora. Fiquei alguns minuto sem dizer nada pronta para fechar os olhos - cas< ele se virasse                                   i
Como se percebesse o que eu pensava ele voltou -se e olhou-me nos olhos.                      J:
- Bom dia - disse                               l
- Bom dia. Fecha a janela est muito frio.      ,( A Outra aparecera sem aviso prvio. Ainda tentavg mudar a direco do vento, descobrir defeitos, dize que no, que no era possvel. Mas sabia que era tarde      {
- Preciso vestir-me - disse eu.                  
F
- Eu espero-te l em baixo - respondeu ele            1
l
E ento eu levantei-me, afastei a Outra do me
pensamento, abri de novo a janela e deixei o sol entra O sol que inundava tudo - as montanhas cobertas d neve, o cho coberto de folhas secas o rio que eu rw via, mas que ouvia.                            !
* O sol bateu nos meus seios, ilumnou o meu corpo e eu no sentia o frio, porque um outro calor me (pnsumia - o calor de uma falha que se trnsforma I chama, a chama que se transforma em foueira a ffoueira que se transforma no incndio impossvel J de controlar. Eu sabia. E queria.
f   Eu sabia que a partir daquele momento iria conhef cer os cus e os infernos, a alegria e a dor, o sonho e o desespero, e que no podia mais conter os ventos que sopravam dos cantos escondidos da alma. Eu sbi que a partir daquela manh o amor ia guiar-me - embora ele j estivesse presente desde a minha infncia, desde que o vi pela primeira vez. Porque nunca o esqueci - embora me tivesse julgado indigna de lutar por ele. Era um amor difcil com fronteiras que eu no queria cruzar.
Lembrei-me da praa em Soria do momento em que lhe pedi para procurar a medalha que u tinha perdido. Eu sabia - sim eu sabia o que ele me ia dizer, e no queria ouvir porque ele era como certos rapazes, que um belo dia vo embora em busca de dinheiro, aventuras ou sonhos. Eu precisava de um amor possvel, o meu corao e o meu corpo estavam ainda virgens e um prncipe encantado viria encon| trar-me.
Naquela poca, pouco percebia de amor. Quando vi na confernia, e aceitei o seu convite julguei que a mulher madura era capaz de controlar o corao da mnina que tanto lutou para encontrar o seu prncipe encntado. E ento ele falou das crianas sempre




104 PAUI.O COELHO
presentes - e eu voltei a ouvir a voz da menina qa fu, da princesa que tinha medo de amar e de perd<|
Durante quatro dias tentei ignorar a voz do n corao mas ela foi ficando cada vez mais forte, dfl xando a Outra desesperada. No canto mais escond da minha alma eu ainda existia e acreditava em< nhos. Antes que a Outra dissesse alguma coisa, acB a boleia aceitei a viagem, resolvi correr riscos. 1|
E foi por causa disso - do pouco de mim que sobll v - que o amor voltou a encontrar-me, depois q me ter procurado nos quatro cantos do mundo.  amor tornou a encontrar-me embora a Outra tives montado uma barreira de preconceitos, certeza livros de estudo, numa rua traquila de Saragoa. '
Abri a janela e o corao. O sol inundou o quart o amor inundou a minha alma.
"
Andmos horas seguidas em jejum, caminhmos pela neve e pela estrada tommos o pequeno-almoo numa cidadezinha da qual nunca saberei o nome mas que tem uma fonte, na qual existe uma escultura onde uma serpente e uma pomba se fundem num nico animal.
Ele sorriu ao ver tal coisa:
-  um sinal. Masculino e feminino unidos num
s.
- Nunca tinha pensado no que tu me disseste ontem - comentei. - E no entanto  lgico.
- Homem e mulher Deus o criou - disse ele, repetindo uma frase do Gnesis. - Porque esta era a sua imagem e semelhana: homem e mulher. l  Vi que os olhos dele tinham outro brilho. Estava Ifeliz e ria de qualquer parvoce. Metia conversa com | as poucas pessoas que encontrava no caminho - la| Vradores de roupa cinzenta que seguiam para o traibalho montanhistas de roupas coloridas que se preparavam para escalar alguma montanha.




106 j>   PALO COELHO
Eu ficava quieta porque o meu francs era pssimo;
mas a minha alma alegrava-se ao v-lo assim.     :'
A sua feicidade era tanta que todos sorriam quarr do conversavam com ele. Talvez o seu corao Ih tivesse dito algo e agora sabia que o amava - embor ainda me comportasse como uma velha amiga et infncia.                                    \
- Tu pareces mais contente - disse eu a certa altura
- Porque sempre sonhei estar aqui contigo a anda por estas montanhas e a colher os frutos dourados do sol.                                        l
>
Os frutos dourados do sol. Um verso que algum
escrevera h muito tempo e que agora ele repetia ' no momento certo
- Existe outro motivo para a tua alegria - comente j eu enquanto voltvamos daquela cidadezinha com| a fonte esquisita                               
- Qual?                                   j
- Tu sabes que eu estou contente. Tu s o respon svel por eu estar aqui hoje a subir montanhas d verdade, longe das montanhas de cadernos e livros. Tu ests a fazer-me feliz. E a felicidade  algo que se| multiplica quando se divide
- Tu fizeste o exerccio do Outro?
- Sim. Como  que sabes?
- Porque tambm tu mudaste. E porque apren demos esse exerccio sempre na hora certa.
A Outra seguiu-me durante toda aquela manh Tentava aproximar-se outra vez. A cada minuto porm a sua voz ficava mais baixa e a sua imagernfe comeava a dissolver-se. Eu lembrava-me do fim dos
NA MARGEM no Rio
i
limes de vampiros quando o monstro se transforma
*mp                                 , ,r  Passmos por outra coluna com a imagem da Virem na cruz.  - Em que  que ests a pensar? - perguntou.
- Em vampiros. Nos seres da noite, trancados em l i mesmos desesperadamente  procura de compa-
J nhia. Mas incapazes de amar.
   Por isso  que a lenda diz que apenas uma estaca no corao  capaz de mat-los; quando isso acontece, o corao desperta, liberta a energia do amor e destri
o mal.                                      .
- Nunca tinha pensado nisso antes. Mas e lgico.
Eu conseguira cravar essa estaca. O corao liberto das maldies tomava conta de tudo. A Outra j no
tinha onde ficar.
Mil vezes senti vontade de segurar na mo dele e
mil vezes fiquei quieta sem fazer nada. Estava um pouco confusa - queria dizer que o amava e no sabia
como comear.
Conversmos sobre as montanhas e sobre os rios.
Ficmos perdidos na floresta durante quase uma hora, mas reencontrmos o trilho. Comemos sandes i e bebemos neve derretida. Quando o sol comeou a  descer, resolvemos voltar para Saint-Savin.




som dos nossos passos ecoava pelas parede" de pedra. Levei instintivamente a mo at  pia di gua benta e fiz o sinal da cruz. Lembrei-me do que| ele tinha dito - a gua  o smbolo da Deusa.
- Vamos at ali - disse ele.                    |
Caminhmos pela igreja vazia e escura onde VLV santo - Santo Savin, um eremita que viveu no prir
cpio do primeiro milnio - estava enterrado debaixo do altar principal. As paredes daquele lugar j tinhartis.. sido derrubadas e reconstrudas vrias vezes.    '
Certos lugares so assim - podem ser arrasado por guerras, perseguies e indiferena. Mas perma necem sagrados. Ento algum passa por ali, sen que falta algo e reconstri-o.                   j
Reparei numa imagem de Cristo crucificado qt
me dava uma sensao estranha - tinha a ntida  S presso de que a sua cabea se movia/ acompanha,
do-me.

- Vamos parar aqui. Estvamos diante de um altar a Nossa Senhora




110    PAULO COELHO
- Olha para a imagem.
Maria com o filho no colo. O menino Jesus a apo tar para o alto.
Comentei com ele o que vi.
- Olha com mais ateno - insistiu. Procurei ver todos os detalhes da escultura e madeira: a pintura dourada o pedestal, a perfeii com que o artista traara as dobras do manto. M foi quando reparei no dedo do menino Jesus qu< percebi onde  que ele queria chegar.
Na verdade embora Maria O tivesse nos braos era Jesus quem A segurava. O brao da crian levantado para o cu, parecia carregar a Virgem at( s alturas. De volta  morada do Seu Noivo.      ;
- O artista que fez isto, h mais de seiscentos anos sabia o que queria dizer - comentou ele.
Passos soaram no cho de madeira. Uma mulhei entrou e acendeu uma vela  frente do altar principa
Ficmos quietos por algum tempo respeitando < silncio daquela orao                        
O amor nunca vem aos poucos, pensava en quanto o via absorto na contemplao da Virgem. N<| dia anterior o mundo tinha sentido sem que ele est vesse presente. Agora, eu precisava que ele estivesa| ao meu lado para poder ver o verdadeiro brilho d| coisas                                       l
(uando a mulher saiu, ele voltou a falar.
- O artista conhecia a Grande Me a Deusa, a face misericordiosa de Deus. Existe uma pergunta que tu me fizeste e que at ao momento no consegui responder-te.
Tu perguntaste-me: "Onde  que aprendeste tudo isso?"
Sim, eu tinha perguntado e ele j tinha respondido. Mas fiquei calada.
- Pois, aprendi como este artista - continuou. Aceitei o amor das alturas. Deixei-me guiar.
Deves-te lembrar daquela carta onde eu dizia que queria entrar para um mosteiro. Nunca te contei, mas o facto  que acabei por entrar.
Lembrei-me imediatamente da conversa antes da conferncia. O meu corao comeou a bater mais rpido e eu procurei fixar os olhos na Virgem. Ela sorria.
No pode ser, pensei. Entrou, mas saiu. Por favor diz-me que j saste do seminrio.




112   PAULO COELHO
- J tinha vivido intensamente a minha juventud*
- continuou ele sem ligar aos meus pensamentos.l Conhecia outros povos e outras paisagens. J tinh procurado Deus plos quatro cantos da Terra. J ir tinha apaixonado por outras mulheres e trabalhad para muitos homens em diversos ofcios.       ,i
Outra pontada. Preciso ter cuidado para que( Outra no volte disse para mim mesma mantend os olhos fixos no sorriso da Virgem             l
- O mistrio da vida fascinava-me e eu queria com preend-lo melhor. Procurei as respostas onde me di ziam que algum sabia alguma coisa. Estive na Indial e no Egipto. Conheci mestres de magia e de medita co. Convivi com alquimistas e sacerdotes.       ,!
E descobri o que precisava descobrir: que a Ver| dade est sempre onde existe a F.              '|
A Verdade est sempre onde existe a F. Olhei d| novo para a igreja  minha volta - as pedras gasta* tantas vezes derrubadas e recolocadas no lugar. Q| que faria o homem insistir tanto trabalhar tanto parj reconstruir aquele pequeno templo - num luga remoto, encravado em montanhas to altas?      l
- Os budistas estavam com a razo os hindual
,'.
estavam com a razo os muulmanos estavam co a razo os judeus estavam com a razo. Sempre q o homem seguisse - com sinceridade - o caminho et, f, ele seria capaz de unir-se a Deus e realiz milagres.                                   \
Mas, no adiantava apenas saber isto: era preci fazer uma escolha. Escolhi a Igreja Catlica porqu fui criado nela e a minha infncia estava impregnada
;                   NA MAREM DO RIO PlEDRA...      113

os seus mistrios. Se tivesse nascido judeu teria colhido o judasmo. Deus  o mesmo embora tenha Wl nomes; mas tu precisas escolher um nome para |0 chamar. Outra vez os passos na igreja.
f   Um homem aproximou-se e ficou a olhar para ns. Depois foi at ao altar central e retirou os dois candelabros. Devia ser algum encarregado de guardar a
igreja.
Lembrei-me do guarda da outra capela - o que no nos queria deixar entrar. Mas, desta vez, o homem no nos disse nada.
- Hoje  noite tenho um encontro - disse ele assim que o homem saiu.
- Por favor, continua com o que estavas a contar. No mudes de assunto.
- Entrei para um seminrio aqui perto. Durante quatro anos estudei tudo o que podia. Nesse perodo tomei contacto com os Esclarecidos, os Carismticos as diversas correntes que procuram abrir portas fechadas h muito tempo. Descobri que Deus j no k era o carrasco que me assustava na nfncia. Havia t um movimento de retorno  inocncia original do
|rCristianismo.
|  Ou seja, depois de 2.000 anos, perceberam que i era preciso deixar Jesus fazer parte da Igreja - disse ]eu, com uma certa ironia.
- Tu podes brincar mas  isso mesmo. Comecei a prender com um dos superiores do mosteiro. Ele




114PALO CllHI.HO
ensinava-me que era necessrio aceitar o fogo d revelao, o Esprito Santo.
O meu corao apertava  medida que ia ouvinc as palavras dele. A Virgem continuava a sorrir e>. menino Jesus tinha uma expresso alegre. Tambi eu j tinha acreditado nisso um dia - mas o tempo,,? idade e a sensao de que era uma pessoa mais lgi e mais prtica, acabaram por me afastar da religi Pensei em como gostaria de recuperar aquela f irt. fantil, que me acompanhou durante tantos anos, me fez crer em anjos e milagres. Mas era impossve* traz-la de volta apenas com um acto de vontade. |
- O superior dizia-me que se eu acreditasse quc sabia acabava por saber - continuou. - Comecei a conversar sozinho, quando estava na minha cela. Rezei para que o Esprito Santo se manifestasse e me| ensinasse tudo o que eu precisava saber. Aos pouco. fui percebendo que  medida que ia falando sozinhq uma voz sbia ia dizendo coisas por mim.        '(
- Tambm acontece comigo - disse eu, interroiit pendo-o.
Ele esperou que eu continuasse. Mas eu no cos seguia dizer mais nada.                        ,
- Estou a ouvir - disse ele.                     Algo tinha travado a minha lngua. Ele dizia cois belas e eu no podia expressar-me com palavras iguai
- A Outra est a querer voltar - disse ele, como s adivinhasse os meus pensamentos. - A Outra te, medo de dizer asneiras.                        
- Sim - respondi, fazendo os possveis para vence o meu medo. - Muitas vezes, quando converso cort
N MAKOM DO RIO PlEKA.         11
leum e me entusiasmo com certo assunto, acabo >r dizer coisas que nunca pensei antes. Parece que '"analizo uma inteligncia que no  minha e que sabe a vida muito mais do que eu.
Mas isso  raro. Geralmente, em qualquer conIversa prefiro ouvir. Creio que estou a aprender algo / de novo, embora acabe sempre por esquecer tudo.
- Ns somos a nossa grande surpresa - disse ele. A f do tamanho de um gro de mostarda far-nos-ia mover essas montanhas a. Foi isto que eu aprendi. E hoje surpreendo-me quando escuto com respeito as minhas prprias palavras.
0s apstolos eram pescadores, analfabetos, ign' rantes. Mas aceitaram a chama que descia do c.
No tiveram vergonha da prpria ignorncia: tiveram f no Esprito Santo.
Este dom  de quem quiser aceit-lo. Basta apenas acreditar aceitar, e no ter medo de cometer alguns erros.
A Virgem sorria  minha frente. Ela teve todos os motivos para chorar - e, no entanto, sorria.
- Continua o que estavas a dizer - disse eu.
- E isto - respondeu ele. - Aceitar o dom. Ento, o dom manifesta-se.
- A coisa no funciona assim.
- No me entendes?
- Entendo. Mas sou como todas as outras pessoas:
enho medo. Acho que isso funciona para ti, para o iinho do lado, mas nunca para mim.




116   PAULO COELHO
- Um dia isso mudar. Quando tu entenderes qv somos como essa criana que est a  nossa frente olhar para ns,                               {
- Mas at l todos ns vamos achar que chegam perto da luz e no conseguimos acender a nosf prpria chama                            
Ele no respondeu.                          '
- Tu no terminaste a histria do seminrio - di
eu aps algum tempo.                        |
- Eu continuo no seminrio                  . E antes que eu pudesse reagir, levantou-se e dirf giu-se para o centro da igreja.
Eu no me mexi. A minha cabea dava voltas voltas sem perceber o que estava a acontecer. N seminrio!
t
Era melhor no pensar. A represa tinha-se ror!. pido o amor inundava a minha alma, e eu no pod,. mais control-lo. Ainda havia uma sada a Outra -' que era dura porque era fraca, que era fria porqu;
tinha medo - mas eu j no a queria. J no podia ve( a vida atravs dos seus olhos
Um som interrompeu o meu pensamento - um so agudo, longo como se fosse uma flauta gigantes O meu corao deu um salto                 l
Veio outro som. E mais outro. Olhei para trs: ha uma escada de madeira que dava para uma pla forma desajeitada que no combinava com a harm nia e a beleza gelada da pedra. Em cima da plataforifl[ encontrava-se um rgo antigo.                4
NA MAREM no RIO PIERA.
5   117
l E ele estava l. No via o seu rosto, porque o lugar ira escuro - mas sabia que ele estava l. l Levantei-me, e ele interrompeu-me:
J - Pilar! - disse com a voz cheia de emoo. - Fica J onde ests.
1 Eu obedeci.
- Que a Grande Me me inspire - continuou. - Que l a msica seja a minha orao deste dia.
E comeou a tocar a Ave Maria. Deviam ser seis horas da tarde, a hora do Angeius, a hora em que a luz e as trevas se misturam. O som do rgo ecoava pela igreja vazia, misturava-se com as pedras e as imagens cheias de histrias e de f. Fechei os olhos e deixei que a msica tambm se misturasse comigo lavasse a minha alma dos medos e das culpas, me fizesse recordar sempre que eu era melhor do que pensava, mais forte do que julgava ser.
Senti uma imensa vontade de rezar e era a primeira vez que isso acontecia - desde que me tinha afastado do caminho da f. Embora sentada no banco a minha alma estava ajoelhada aos ps daquela Senhora 
minha frente a mulher que disse
sim
\ quando podia ter dito no, e o anjo buscaria outra,
j e nenhum pecado haveria aos olhos do Senhor
j porque Deus conhece a fundo a fraqueza dos seus
| filhos. Mas ela disse
, seja feita a vossa vontade
\ mesmo quando sentiu que recebia, junto com as




18    PAULO COLHO
palavras do anjo, toda a dor e sofrimento do seu de| tino e os olhos do seu corao puderam ver o fili| amado a sair de casa, as pessoas que o seguiam e pois o negavam, mas                         m seja feita a vossa vontade                     mesmo quando, no momento mais sagrado da vi|| de uma mulher, teve que se misturar com os anima de um estbulo para dar  luz, porque assim queria as Escrituras,                                 \ seja feita a vossa vontade                      mesmo quando, aflita, procurava o seu menin pelas ruas, o encontrou no templo e ele pediu qui no o atrapalhasse, porque precsava cumprir outro deveres e outras tarefas, seja feta a vossa vontade                     ;,| mesmo sabendo que continuaria a procur-lo pe( resto dos seus dias, com o corao trespassado peU. punhal da dor temendo a cada minuto pela sua vidaf sabendo que ele estava a ser perseguido e ameaad seja feita a vossa vontade mesmo que ao encontr-lo no meio da multid no tenha conseguido chegar perto, seja feita a vossa vontade                    '..( mesmo que, quando pediu a algum para avis-lo q ela estava ali, o filho tenha mandado dizer que a mini me e os meus irmos so estes que esto comigo ;
seja feita a vossa vontade
mesmo que todos tenham fugido no fim, e s el outra mulher, e um deles tenha ficado aos ps da cru a aguentar o riso dos inimigos e a cobardia dos amigo seja feita a vossa vontade                     i
NA MAKC,I:.\I 1)0 RIO PH: l) RA...___
19
Seja feita a vossa vontade Senhor. Porque Tu conheces a fraqueza do corao dos Teus filhos e s entregas a cada um o fardo que pode carregar. Que Tu entendas o meu amor - porque ele  a nica coisa que tenho de realmente meu, a nica coisa que poderei carregar para a outra vida. Faz com que ele se conserve corajoso e puro capaz de continuar vivo, apesar dos abismos e das armadilhas do mundo.
O rgo ficou em silncio e o sol escondeu-se atrs das montanhas - como se ambos fossem regidos pela mesma Mo. A sua prece fora ouvida a msica tinha sido a sua orao. Eu abri os olhos e a igreja estava completamente escura - excepto pela vela solitria que iluminava a imagem da Virgem.
Escutei de novo os seus passos, enquanto voltava at onde eu estava. A luz daquela nica vela iluminou as minhas lgrimas e o meu sorriso - que, embora no fosse to belo como o sorriso da Virgem mostrava que o meu corao estava vivo que ainda era
capaz de amar.
Ele ficou a olhar para mim e eu olhava-o tambm. A minha mo procurou a mo dele e encontrou-a. Senti que agora, era o corao dele que batia mais rpido - eu quase que o podia ouvir, porque estvamos novamente em silncio.
A minha alma, porm, estava tranquila om u
corao em paz.




120   PAULO COELHO
Segurei a mo dele e ele abraou-me. Ficmos al aos ps da Virgem, durante algum tempo, que ni| sei precisar, pois o tempo tinha parado.
Ela olhava-nos. A jovem camponesa que tinha di sim ao seu destino. A mulher que aceitou levar jm ventre o filho de Deus e no corao o amor da Deus| Ela era capaz de compreender                  
Porque ela tinha amado para alm da prpria coir preenso.                                     :'
Eu no queria perguntar nada. Bastavam os mchj| mencos passados na igreja, naquela tarde para justificar toda aquela viagem. Bastavam os quatro dia com ele para justificar todo aquele ano onde nada| de especial tinha acontecido.                    :;|
..8
Por isso eu no queria perguntar nada. Samos daf igreja de mos dadas e voltmos para o quarto. A minha cabea andava s voltas - o seminrio a Gran de Me o encontro que ele ia ter nessa noite.      J
E ento dei-me conta de que, tanto eu como ele queramos prender as nossas almas no mesmo des| tino.                                        /
Mas existia um seminrio em Frana, existia SaraJ goa. O meu corao apertou-se. Olhei para as casa| medievais o poo da noite anterior. Lembrei-me d4| silncio e do ar triste da Outra mulher que eu foii| um dia.                                        |
Deus tento recuperar a minha f. No me aban| dones no meio de uma histria como esta pedi, afasl tando o medo.                                l
Ele dormiu um pouco e eu fiquei outra vez acordada, a olhar para o recorte escuro da janela. Acordmos, jantmos com a famlia que nunca conversava  mesa e ele pediu a chave da casa.
- Hoje vamos voltar tarde - disse ele para a mulher.
- Os jovens precisam divertir-se - respondeu ela.
- E aproveitar os feriados da melhor maneira possvel.




l enho que te perguntar uma coisa - disse ew assim que entrmos no carro. - Tento evitar mas na;' consigo                                      ri
- O seminrio - disse ele.
- E isso. No compreendo
Embora no tenha mais importncia compreende nada pensei.
- Eu sempre te amei - comeou ele. - Tive outra1 mulheres mas sempre te amei. Carreguei a medalh comigo, pensando sempre que um dia ta entregam? com a coragem de dizer amo-te             i
Todos os caminhos do mundo me levavam de vo ta a ti. Escrevia as cartas e abria-as com medo de ca resposta - porque numa delas, tu pediste-me para( dizer se tinha encontrado algum             if
Foi quando senti o chamamento para a vida es ritual. Ou melhor, aceitei o chamamento porque assim como tu - j' estava presente desde a minha f anci. Descobri que Deus era importante demais r" minha vida e que no seria feliz se no seguisse ,
NA MARGEM no Rio PIERA...      123
ninha vocao. A face de Cristo estava em cada um Ios pobres que encontrei pelo mundo e eu no podia Ideixar de v-la.
Ele parou de falar e eu resolvi no insistir. Vinte minutos depois ele parou o carro e descemos.
- Estamos em Lourdes - disse. - Precisavas ver isto no Vero.
Tudo o que via eram ruas desertas lojas fechadas hotis com grades de ao nas portas principais.
- Seis milhes de pessoas vm aqui no Vero continuou, entusiasmado.
- Para mim, parece uma cidade-fantasma. Atravessmos uma ponte. Diante de ns, um imenso porto de ferro - ladeado por anjos - tinha um dos seus lados abertos. E ns entrmos.
- Continua com o que estavas a dizer - pedi, mesmo tendo decidido pouco antes que no insistiria.
- Fala-me da face de Cristo.
Percebi que ele no queria seguir com a conversa. Talvez no fosse o lugar nem o momento. Mas agora que tinha comeado, tinha de acabar.
  Comemos a andar por uma imensa avenida, | ladeada por campos cobertos de neve. Ao fundo, eu apercebia-me da silhueta de uma imensa catedral.
- Continua - repeti.
- Tu j sabes. Entrei para o seminrio. Durante o j primeiro ano pedi a Deus que me ajudasse a trans-




124.   PAULO COELHO
formar o meu amor por ti, num amor por todos c homens. No segundo ano senti que Deus me ouvi, No terceiro ano embora as saudades ainda fosse muito grandes eu j tinha a certeza de que este am se estava a transformar em caridade orao e aju aos necessitados.                            |
- Ento, porque  que voltaste a procurar-me? Po que  que acendeste novamente em mim este fogo Porque  que me contaste o exercco da Outra e m fizeste ver como eu era mesquinha com a vida?   
As minhas palavras saam confusas, trmulas. A cada minuto que passava, eu via-o mais perto d4 seminrio e mais longe de mim.                4
- Porque  que voltaste? Porque  que s me contas? essa histria hoje precisamente quando comeo a! amar-te?
Ele demorou a responder.
- Vais achar uma tolice - disse.                 |
- No vou achar tolice nenhuma. No tenho mai medo de parecer ridcula. Tu ensinaste-me isso.   4
- H dois meses atrs o meu superior pediu-me para acompanh-lo at casa de uma mulher qu? tinha morrido e deixado todos os seus bens ao nossfl seminrio. Ela morava em Saint-Savin e o meu si perior tinha que fazer um inventrio das suas coisa

A catedral, a fundo da avenida por onde can nhvamos, aproximava-se a cada instante. A minh intuio dizia-me que assim que chegssemos ali qualquer cnversa seria interrompida.           |
NA MARGEM 00 RIO PlERA...      125
; - No pares - disse eu. - Mereo uma explicao.  - Lembro-me do momento em que entrei naquela l casa. As janelas davam para as montanhas dos Pirenus e a claridade do sol, aumentada pelo brilho da j neve espalhava-se por todo o ambiente. Comecei a fazer uma lista das coisas mas ao fim de poucos minutos parei.
Tinha descoberto que o gosto daquela mulher era exactamente igual ao meu. Ela possua discos que eu teria comprado com as msicas que eu tambm gostaria de ouvir a olhar para a paisagem l fora. As estantes tinham muitos livros - alguns dos quais eu j tinha lido outros que certamente gostaria de ler. Reparei nos mveis nos quadros, nos pequenos objectos espalhados; era como se eu os tivesse escolhido.
A partir daquele dia no consegui deixar de pensar naquela casa. Cada vez que entrava na capela para orar, lembrava-me de que a minha renncia no tinha sido completa. Eu imaginava-me ali, contigo a morarmos numa casa como aquela, a ouvir aqueles discos, a olhar o fogo na lareira e a neve nas montanhas. Eu imaginava os nossos filhos a correrem pela casa e a brincarem nos campos de Saint-Savin..
Embora eu nunca tivesse posto os ps naquela casa sabia exactamente como ela era. E desejei que ele no dissesse mais nada para poder sonhar. Mas ele continuou:
- H duas semanas atrs no consegui aguentar a tristeza da minha alma. Procurei o meu superior e contei-lhe tudo o que se passava comigo. Contei a




126 S  PAULO COELHO
histria do meu amor por ti e do que tinha sentid< quando fui fazer o inventrio.                 ;
Uma chuva miudinha comeou a cair. Eu baixei cabea e fechei ainda mais o casaco. Tinha medo d ouvir o resto                                i
- Ento o meu superior disse-me: H muitas m& neiras de servir o Senhor. Se acha que esse  o se destino, v  procura dele. S quem  feliz pode espa lhar a felicidade.
- No sei se esse  o meu destino - respondi-lhe. Encontrei a paz no meu corao quando resolvi en trar para este mosteiro.                          K
- Ento v at l e tire toda e qualquer dvida disse ele. - Permanea no mundo ou volte para o se minrio. Mas tem que estar por inteiro no lugar qu escolher. Um reino dividido no resiste s investida do Adversrio. Um ser humano dividido no conseJ gue enfrentar a vida com dignidade.
Ele enfiou a mo no bolso e deu-me algo. Era umal| chave.                                        ?|
- O meu superior emprestou-me a chave da casaj Disse que podia esperar um pouco antes de vender osj objectos. Sei que ele queria que eu l voltasse contigo.,
Foi ele que organizou a palestra em Madrid - par que nos tornssemos a encontrar.              
Eu olhei para a chave na mo dele. E apenas sorri|| Dentro do meu peito entretanto, era como se sino tocassem e o cu se abrisse. Ele serviria Deus de umlj outra maneira - a meu lado. Porqu eu iria lutar por issoa
- Pega nesta chave - disse ele. Estendi a mo, e guardei-a i'o bolso.
A baslica j estava diante de ns. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, algum o viu e veio cumpriment-lo. A chuva caa insistentemente e eu no sabia quanto tempo amos ficar por ali; lembrava-me/ a cada instante de que tinha apenas uma muda de roupa, e no podia ficar molhada.
Tentei concentrar-me nisso. No queria pensar na casa nas coisas que estavam suspensas entre o cu e
a terra, esperando a mo do destino.
Ele chamou-me e apresentou-me a algumas pessoas. Perguntaram onde estvamos e quando ele falou em Saint-Savin algum disse que ali estava \ enterrado um santo eremita. Disseram que foi ele l quem descobriu o poo no meio da praa - e que a l ideia original da cidade era criar um refgio para os ireligiosos que abandonavam a vida nas cidades e iam Ipara as montanhas  procura de Deus.  - Eles ainda esto l - disse outro. s Eu no sabia se esta histria era verdade e no sabia
quem eram eles.




128   PAULO COELHO
Outras pessoas foram chegando e o grupo dirigi
-se para a frente da gruta. Um homem mais vel tentou dizer-me alguma coisa em francs. Ao per( ber que eu no entendia bem mudou para um esti nhol arrastado:
- Voc est com uma pessoa muito especial - dia
- Um homem que faz milagres.
Eu no respondi nada mas lembrei-me da noite es Bilbao quando um homem desesperado o viera pn curar. Ele no me dissera onde tinha ido e isso no m|

interessava. O meu pensamento estava concentrad numa casa, que sabia exactamente como era. Quais o( livros, os discos, qual a paisagem e a decorao.
Nalgum lugar do mundo uma casa de verdade eai" tava  espera de ns, algum dia. Uma casa onde e' aguardaria tranquila a sua chegada. Uma casa ond( podia esperar por uma menina ou um menino qnf, voltava do colgio, enchia o ambiente com a sua ale: eria e no deixava nada no lugar onde havamos CG1,
0                                                                     "
locado.
O grupo caminhou em silncio debaixo da chuva at que chegmos finalmente ao lugar das apariea(. Era exactamente como eu imaginava: a gruta, l imagem de Nossa Senhora e uma fonte - protegi<IJ por um vidro - onde o milagre da gua acontecei Alguns peregrinos rezavam outros estavam sentad dentro da gruta, em silncio com os olhos fechad(2| Um rio corria em frente da gruta e o som das gu<| tranquilizou-me. Ao ver a imagem fiz uma rpi| prece; pedi  Virgem que me ajudasse porque o md| corao no precisava sofrer mais.              (
NA MARM no Rio PIEDRA...      129
l Se a dor tiver que vir que venha rpido, disse ieu. Porque tenho uma vida pela frente e preciso de S viver da melhor maneira possvel. Se ele tem que fazer alguma escolha, que a faa logo. Ento, eu espero-o. Ou esqueo-o.
} Esperar di. Esquecer di. Mas no saber que  deciso tomar  o pior dos sofrimentos.
J   No ntimo do meu corao senti que ela ouvira o
! meu pedido.




l 3a oahazQ   viiaa-viivn




l    uando o relgio da baslica tocou a meia-noite J   o grupo  nossa volta tinha crescido bastante. ramos |   quase cem pessoas, entre elas alguns sacerdotes e freij   rs, parados debaixo da chuva, a olhar para a imagem. i     - Salve Nossa Senhora da Imaculada Conceio! disse algum perto de mim, assim que as badaladas    do relgio acabaram de soar.
- Salve! - responderam todos, com uma salva de t palmas.
    Um guarda aproximou-se imediatamente e pediu que no fizssemos barulho. Estvamos a incomodar a os outros peregrinos.
\ - Viemos de longe - disse um homem do nosso grupo.
- Eles tambm - respondeu o guarda, enquanto pontava para as outras pessoas que rezavam  chu,'a. - E esto em silncio. Torci para que o guarda acabasse com aquele enontro. Queria estar sozinha com ele, longe dali, gurar nas suas mos e dizer-lhe o que sentia. Presvamos conversar sobre a casa fazer planos, falar




134    PAULO COELHO
de amor. Eu precisava tranquiliz-lo, demonstrar mais o meu afecto dizer-lhe que poderia realizar o
seu sonho - porque estaria ao seu lado, a ajud-lo. |
Mas o guarda afastou-se. Um dos sacerdotes do| nosso grupo comeou a rezar o tero em voz baixa. | Quando chegmos ao Credo que encerra a srie de oraes todos ficaram quietos, de olhos fechados.
- Quem so estas pessoas? - perguntei-lhe.
- Carismticos - disse ele.
J tinha ouvido essa palavra, mas no sabia exactamente o que ela significava. Ele apercebeu-se disso.
- So as pessoas que aceitam o fogo do Esprito Santo - disse. - O fogo que Jesus deixou e onde poucos acenderam as suas velas. So pessoas que esto prximas da verdade original do Cristianismo quando todos podiam realizar milagres.
So pessoas guiadas pela Mulher Vestida de Sol
- disse, apontando com os olhos para a Virgem.
O grupo comeou a cantar baixinho, como se obedecesse a um comando invisvel.
- Ests a tiritar de frio. No precisas participar - i disse ele.
- Tu ficas?                                       1
- Eu fico. Isto  a minha vida.                   S
- Ento eu quero participar - respondi embora pr' ferisse estar longe dali. - Se este  o teu mundo, quero aprender a fazer parte dele.
O grupo continuou a cantar. Fechei os olhos e procurei seguir a msica, mesmo sem falar bem o francs.
NA MAGE 1)0 RIO PIDKA.     S   135
Repetia as palavras sem entender o seu significado, repetia-as apenas pelo som. Mas isso ajudava-me a passar o tempo.
Aquilo ia terminar da a pouco. Ento podamos voltar para Saint-Savin s ns os dois.
Continuei a cantar mecanicamente. Aos poucos fui-me apercebendo de que a msica tomava conta de mim como se tivesse vida prpria e fosse capaz de me hipnotizar. O frio foi passando e eu j no ligava  chuva - e para o facto de ter s uma roupa. A msica fazia-me bem, alegrava o meu esprito levava-me de volta a uma poca em que Deus estava mais prximo e me ajudava mais.
Quando j estava quase a entregar-me por completo a msica cessou.
Abri os olhos. Desta vez no era o guarda mas um padre. Ele dirigiase para um sacerdote do grupo. Conversaram um pouco em voz baixa e o padre afastouse.
O sacerdote virou-se para ns:
- Teremos que fazer as nossas oraes do outro lado do rio - disse.
Em silncio, caminhmos para o local indicado. Atravessmos a ponte que fica quase em frente  gruta e fomos para a outra margem. O local era mais bonito: rvores, um descampado e o rio - que agora estava entre ns e a gruta. Dali podamos ver claramente a imagem iluminada e podamos soltar melhor a nossa voz, sem a desagradvel sensao de estar a atrapalhar a orao dos outros.
Esta impresso deve ter contagiado todo o grupo:
as pessoas comearam a cantar mais forte, ergueram




136PAUL COELHO
os rostos para cima e sorriam com os pingos de chuva que escorriam pelas suas faces. Algum levantou q| braos, e - no minuto seguinte - todos tinham os br|| cos levantados, balanando-os de um lado para o om tro, ao ritmo da msica.                       |
Eu lutava para me entregar - ao mesmo tempo q| queria prestar ateno ao que estava a fazer. U|| sacerdote, a meu lado cantava em espanhol e comed| a tentar repetir as suas palavras. Eram invocaes a Esprito Santo  Virgem - para que estivessem pr< sentes e derramassem as suas bnos e os seus pode' rs sobre cada um.
- Que o dom das lnguas desa sobre ns - dis outro sacerdote repetindo a frase em espanhol italia no e francs
No consegui perceber o que aconteceu a seguir Cada uma daquelas pessoas comeou a falar uma lf gua que no fazia parte de nenhum idioma conh eido. Era mais um barulho do que uma lngua coit palavras que pareciam vir directas da alma seni nenhum sentido lgico. Lembrei-me rapidamente d nossa conversa na igreja, quando ele me falou dajl Revelao - de que toda a sabedoria consistia em o( vir a prpria alma.                            j
Talvez esta seja a linguagem dos anjos pej sei tentando imitar o que faziam - e sentia-me r| dcula.                                     
Todos olhavam para a Virgem do outro lado (1| rio, e pareciam estar em transe. Eu procurei-o com QJ olhos e vi que estava um pouco distante de minsj Tinha as ms levantadas para o cu e dizia tamb|
N MAREM DO RIO Pi E l) RA.        137
lavras rpidas como se falasse com Ela. Sorria, oncordava e s vezes fazia expresses de surpresa. s. Este  o mundo dele, pensei.
 Aquilo comeou a assustar-me. O homem que eu ueria ao meu lado dizia que Deus tambm era muer/ falava lnguas incompreensveis, entrava em transe e parecia estar prximo dos anjos. A casa na  montanha comeou a parecer menos real, como se  fizesse parte de um mundo que ele j tinha deixado
r para trs.
J    Todos aqueles dias - desde a conferncia em Mal  drid - me pareciam ser parte de um sonho uma viai   eem para fora do tempo e do espao da minha vida. l   No entanto, o sonho tinha o sabor de mundo, de rs   mance, de novas aventuras. Por mais que eu resistisse,    sabia que o amor incendeia facilmente o corao de l   uma mulher e era uma questo de tempo at que eu l   deixasse o vento soprar e a gua destruir as paredes l  da represa. Por menos que estivesse disposta a isso
l,  no princpio eu j tinha amado antes e julgava saber
| como lidar com a situao.
\   Mas ali estava algo que eu no conseguia perceber. No era este o catolcismo que me tinham ensinado \ no colgio. No era assim que eu via o homem da
i minha vida.
i Homem da minha vida; que estranho, disse para Unim mesma, surpreendida com o meu pensamento. | Diante do rio e da gruta, senti medo e cime. Medo orque tudo aquilo era novo para mim, e o que  novo ssusta-me sempre. Cime porque aos poucos me ,,. percebia que o seu amor era maior do que eu pen-




138    PAULO COELHO
sava e que se espalhava por terrenos que eu jam tinha pisado.
Perdoa-me, Nossa Senhora dsse eu. Perde -me se estou a ser mesquinha, pequena disputai a exclusividade do amor deste homem. E se a vocao fosse realmente sair do mundo e trancar.; no seminrio, e conversar com os anjos?        \!
Por quanto tempo resistiria antes de deixar a ca;' os discos e os livros, e retornar ao seu verdadeiro c' minho? Ou mesmo que nunca mais voltasse ao serrt nrio, qual seria o preo que eu teria que pagar papf mante-lo afastado do seu verdadeiro sonho?     t
Todos pareciam estar concentrados no que fazia: menos eu. Tinha os olhos fixos nele e ele faava': lngua dos anjos                               ff
'
O medo e o cime foram substitudos pela solide Os anjos tinham com quem conversar e eu estava s,
No sei o que me impeliu a falar aquela lngua e tranha. Talvez a imensa necessidade de me encontr com ele, dizer-lhe o que estava a sentir. Talvez porqu' precisava que a minha alma conversasse comigo ** meu corao tinha muitas dvidas e precisava respostas                                    f
No sabia exactamente o que fazer; a sensao (. ridculo era muito grande. Mas ali estavam hom e mulheres de todas as idades, sacerdotes e leigt novios e freiras, estudantes e velhos. Aquilo de* -me coragem e eu pedi ao Esprito Santo que me fiz.', se vencer a barreira do medo.
NA MARGEM 1)0 RIO PlEDKA.        139
; Tente disse para mim mesma. Basta abrir a ca e ter a coragem de dizer coisas que no entende.
nte.
1 Resolvi tentar. Mas antes, pedi que aquela noite e um dia to longo que eu nem me conseguia lemrar bem como ele tinha comeado - fosse uma Epifania, um novo comeo para mim.
|  Deus parecia ter-me ouvido. As palavras comeail ram a sair mais livres - e foram aos poucos perdendo / o sgnificado da lngua dos homens. A vergonha dij minuiu, a confiana aumentou, a lngua comeou a fluir livremente. Mesmo sem entender nada do que l   estava a dizer aquilo fazia sentido para a minha alma. j     O simples facto de ter coragem suficiente para dizer l   coisas sem sentido comeou a deixar-me eufrica. Eu |   era livre, no precisava dar explicaes dos meus |   actos. Esta liberdade levava-me at ao cu - onde um Amor Maior, que tudo perdoa, e jamais se sente aban|  donado, me acolhia de volta.
    Parece que a minha f est a voltar, pensava, l surpresa com todos os milagres que o amor pode \ fazer. Eu sentia a Virgem ao meu lado, segurando\ -me no colo, cobrindo-me e aquecendo-me com o seu i manto. As palavras estranhas saam cada vez mais | rpido da minha boca.
l Comecei a chorar sem perceber. A alegria invadia
10 meu corao, inundava-me. Era mais forte que os leus medos, que as minhas certezas mesquinhas que tentativa de controlar cada segundo da minha vida. | Sabia que aquele pranto era um dom porque no lgio de freiras ensinaram-me que os santos chora-




140   PAULO COELHO
vam no xtase. Abri os olhos, contemplei o cu escu1 e senti as minhas lgrimas a misturarem-se cori chuva. A terra estava viva a gua que vinha de cit' trazia de volta o milagre das alturas. Ns ramos p te desse milagre
- Que bom Deus pode ser mulher - disse em M baixa, enquanto os outros cantavam. - Se assim U foi a Sua face femnina que nos ensinou a amar. 4
'-\:
- Vamos rezar em tendas de oito - dise o sacerdo em espanhol, italiano e francs.                ;
Fique de novo desnorteada, sem perceber o qi estava a acontecer. Algum se aproximou de mim ? passou o seu brao por cima do meu ombro. Out pessoa fez o mesmo do outro lado.
Formmos um crculo de oito pessoas, todos abif ados. A, inclinmo-nos para a frente e as nossas a[ becas tocaram-se
Parecamos uma tenda humana. A chuva tinha ai| mentado um pouco mas ningum ligava. A posi? em que estvamos concentrava todas as nossas ene gias e o nosso calor.                           .
- Que a Imaculada Conceio ajude o meu flhf faa com que encontre o seu caminho - disse a V( do homem que me tinha abraado do lado direito Peo que rezemos uma Ave-Maria po meu filho
- men - responderam todos. E as oito pesso rezaram a Ave-Maria.
- Que a Imaculada Conceio me ilumine e dei
perte em mim o dom da cura - disse c voz de um
t
N MARE DO RIO PlEDKA.
141
nulher na nossa tenda. - Rezemos uma Ave.Maria.
f
De novo todos disseram Amen e rezaram. Cada essoa fez um pedido e todos participavam com as oraes. Eu sentia-me surpreendida comigo mesma porque estava a orar como uma criana - e como /uma criana, acreditava que aquelas graas seriam alcanadas.
O grupo ficou em silncio por uma fraco de segundo. Vi que tinha chegado a minha vez de pedir qualquer coisa. Em qualquer outra circunstncia eu teria morrido de vergonha - sem conseguir dizer nada. Mas havia uma Presena e essa presena dava-me confiana.
- Que a Imaculada Conceio me ensine a amar como ela - disse eu. - Que esse amor me faa crescer a mim e ao homem a que foi dedicado. Rezemos uma Ave-Maria.
Rezmos juntos e veio outra vez a sensao de liberdade. Durante anos eu lutara contra o meu corao, porque tinha medo da tristeza, do sofrimento, do abandono. Sempre soubera que o verdadeiro amor estava acima de tudo isso e que era melhor morrer o que deixar de amar.
\ Mas achava que apenas os outros tinham coragem. |E agora, neste momento, descobria que tambm eu |ra capaz. Mesmo que significasse partida, solido ,risteza/ o amor valia cada centavo do seu preo.
; No posso pensar nestas coisas, tenho que me oncentrar no ritual. O sacerdote que conduzia o upo pediu que as tendas fossem desfeitas e que




142   PAULO COELHO
orssemos plos doentes. As pessoas rezavam ca| tavam, danavam sob chuva, adorando a Deus efl Virgem Maria. Volta e meia voltavam todos a faM lnguas estranhas e a balanar os braos apontad para o cu.                                 ,
- Algum que est aqui e que tem uma nora doer saiba que ela est a ser curada - disse uma muir em determinado momento                   fl
As oraes voltaram assim como os cnticos e | alegria. De vez em quando, ouvia-se a voz daquet| mulher.                                      ,i
- Algum deste grupo, que perdeu a me recent mente, deve ter f e saber que ela est na glria d( cus - dizia.
Mais tarde ele disse-me que este era o dom d profecia que certas pessoas eram capazes de preB( sentir o que estava a acontecer num lugar distantf ou o que ia acontecer em pouco tempo.          f%
Mas, mesmo que nunca soubesse disso, eu acre| ditava na fora da voz que falava de milagres. Esp| rava que ela, nalgum momento comentasse sobre amor de duas pessoas ali presentes. Tinha esperanf| de ouvi-la proclamar que esse amor era abenoadif por todos os anjos, santos, por Deus e pela Deusa.<|
Xs
No sei quanto tempo durou aquele ritual. As pessoas voltaram a falar lnguas estranhas, cantaram, danaram com os braos estendidos para o cu rezaram pelo seu vizinho pediram milagres, testemunharam graas que tinham sido concedidas.
Finalmente o padre que conduzia a cerimnia
disse:
- Vamos rezar a cantar, por todas as pessoas que
participaram pela primeira vez nesta renovao
carismtica.
Eu no devia ser a nica. Isso tranquilizou-me. Todos cantaram uma orao. Desta vez, eu s ouvi
 pedindo que as graas descessem sobre mim.
\  Eu precisava muito.
|i - Vamos receber a bno - disse o padre. | Todos se voltaram para a gruta iluminada na outra ;iargem do rio. O padre fez vrias oraes e aben.oou-nos. Ento, todos se beijaram, todos se desejaam <feliz dia da Imaculada Conceio, e seguiram ? seu rumo.




144    PAULO COELHO
Ele aproximou-se. Tinha uma expresso mais a gre do que de costume.
- Ests ensopada - disse                   i
- Tu tambm - respondi rindo.           ".
Voltmos para o carro e regressmos a Saint-Sai Eu ansiara muito por este momento - mas agora < ele tinha chegado no sabia mais o que dizer conseguia falar sobre a casa nas montanhas o rih os livros e os discos as lnguas estranhas e as ora nas tendas.                                  ,
Ele vivia em dois mundos. Num determinado l gar no tempo, estes dois mundos fundiam-se num i(
- e eu precisava descobrir como.               H
Mas as palavras, naquele momento de nada l liam. O amor descobre-se atravs da prtica de arra|

S tenho mais uma camisola - disse ele, quando chegmos ao quarto. - Podes ficar com ela. Amanh
compro uma para mim.
- Colocamos as roupas em cima do aquecedor. Amanh estaro secas - respondi. - De qualquer maneira, ainda tenho a camisa que lavei ontem.
Por alguns instantes, ningum disse nada.
Roupas. Nudez. Frio. Ele, finalmente, tirou de dentro da pequena mala
uma camisola.
- Isto d para tu dormires - disse.
- Claro - respondi.
t. Apaguei a luz. No escuro tirei a roupa molhada, tendi-a em cima do radiador e girei o boto at ao
"nximo.
A claridade do lampio l fora era suficiente para ;.ue ele pudesse ver o meu vulto, saber que eu estava ua. Vesti a camisola e enfiei-me dentro da minha >ama. i - Eu amo-te - ouvi-o dizer.




146    PAULO COELHO
- Estou a aprender a amar-te - respondi      a Ele acendeu um cigarro.
- Achas que vai chegar o momento certo? - pergu tou.
Eu sabia do que  que ele estava a falar. Levant< -me e fui-me sentar na borda da cama dele.
A ponta do cigarro iluminava o rosto dele de v em quando. Ele agarrou na minha mo e estivem< assim por uns momentos. Ento, acariciei os seu
cabelos.                                         |
'
- No devias perguntar - respondi. - O amor na' faz muitas perguntas porque - se comeamos a pen
sar, comeamos a ter medo.  um medo inexplicve nem adianta tentar coloc-lo em palavras.
Pode ser o medo de ser desprezada, de no se, aceite, de quebrar o encanto. Parece ridculo mas4 assim. Por isso no se pergunta - faz-se. Como mesmo j disseste tantas vezes, correm-se os riscos.
- Eu sei. Nunca perguntei antes.              |
- Tu j tens o meu corao - respondi, enquant fingia no ter ouvido as suas palavras. - AmanN, podes partir e lembraremos sempre o milagre deste( dias; o amor romntico a possibilidade, o sonho i
Mas eu acho que Deus na sua Infinita Sabedori| escondeu o Inferno no meio do Paraso. Para que es|| vssemos sempre atentos. Para no nos deixar esqu| cer a coluna do Rigor, enquanto vivemos na alegr| da Misericrdia.                             |
As mos dele tocaram com mais fora os me| .  belos                                      i

- Tu aprendes rpido - disse ele.              \
NA MARM no Rio P'EDRA.
S  147
Eu estava surpresa com o que tinha dito. Mas, se ? aceita que sabemos, acabamos realmente por saber. f - No penses que sou difcil - disse eu. - J tive luitos homens. J fiz amor com gente que nem co;hecia muito bem.  - Tambm eu - respondeu ele.  Tentava ser natural, mas pela maneira como tocava na minha cabea, vi que as minhas palavras tinham sido difceis de ouvir.
- No entanto, desde hoje de manh que a minha virgindade misteriosamente se refez. No tentes entender, porque s quem  mulher sabe o que estou a dizer. Estou a descobrir outra vez o amor. E isso leva tempo.
Ele soltou os meus cabelos e tocou no meu rosto. Eu beijei-o levemente nos lbios e voltei para a minha cama.
Eu no conseguia perceber porque  que agira dessa maneira. No sabia se fazia aquilo para prend-lo ainda mais ou se para o deixar livre.
Mas o dia tinha sido longo. Estava cansada demais para pensar.




T.                                      ' l ive uma noite de mensa paz. Em certo mome
to parecia que estava acordada - embora continua a dormir. Uma presena feminina pegou-me ao c e era como se eu a conhecesse h muito tempo, porc
me sentia proteida e amada.
10
Acordei s sete da manh, a morrer de calor. Lei brei-me que tinha colocado o aquecimento ao maxil para secar as nossas roupas. Ainda estava escur procurei levantar-me sem fazer barulho, para na, incomodar                                  i
,t"
Assim que me levantei, vi que ele no estava. '
Entrei em pnico. A Outra acordou imediatame e diia-me: Ests a ver? Foi s concordares e;
desapareceu. Como todos os homens.        l
O pnico aumentava a cada minuto. Eu no p perder o controlo. Mas a Outra no parava de fa
Ainda estou aqui, dizia ela. Tu deixaste o ve mudar de direco, abriste a porta e o amor inund
NA MAKCI;\I 1)0 Rl(l PIF.IIKA.            149
ia vida. Se agirmos rpido, ainda conseguimos
ntrolar.
!' Eu precisava ser prtica. Tomar providncias.
Ele foi-se embora - continuou a Outra. - Tu tens Ide sair deste fim do mundo. A tua vida em Saragoa ainda est intacta: volta a correr. Antes de perderes o f que conseguiste com tanto esforo. /   Ele deve ter os seus motivos, pensei.     Os homens tm sempre motivos, respondeu a Oua. Mas o facto  que acabam sempre por deixar as mulheres.
Ento, tenho de saber como  que volto para Espanha. O crebro precisa estar ocupado o tempo todo. Vamos para o lado prtico: dinheiro disse a Outra. Eu no tinha nem um tosto. Precisava descer, telefonar  cobrana para os meus pais e esperar que eles me enviassem dinheiro para a passagem de volta.
Mas hoje era feriado e o dinheiro s chegaria amanh. Como  que fao para comer? Como explicar aos donos da casa que era preciso esperar dois dias para receberem o pagamento?
O melhor  no dizer nada - respondeu a Outra. Sim, ela tinha experincia, sabia lidar com situaes como esta. No era a menina apaixonada que perde |0 controlo, mas a mulher que sempre soube o que esejava na vida. Eu devia continuar ali, como se nada Vesse acontecido, como se ele fosse voltar. E, quando dinheiro chegasse, pagaria as dvidas e iria embora. : Muito bem, disse a Outra. Ests a voltar ao que 'ras. No fiques triste - porque um dia irs encontrar ,ii homem. Algum que tu possas amar sem riscos.




150    PAULO COELHO
Apanhei as minhas roupas no radiador. Estav secas. Era preciso saber qual daquelas cidadezin tinha um banco, telefonar tomar providncias. quanto pensasse nisso no teria tempo para ch ou sentir saudades.
Foi ento que reparei num bilhete.          .
 Vf.
Fui ao seminrio. Arruma as tuas coisas (ah!ah que viajamos esta noite para Espanha. Estarei de volta fim da tarde.

E terminava com: Amo-te                i
"i.
Apertei o bilhete contra o meu peito e senti-me E' servel e aliviada ao mesmo tempo. Notei que a Outf se encolhia, surpreendida com o achado.       .
Eu tambm o amava. A cada minuto, a cada segv do, este amor crescia e transformava-me. Voltav ter f no futuro e estava - aos poucos - a voltar a f em Deus.                                :
Tudo por causa do amor.                 '
No quero mas falar com as minhas prpit trevas, prometi a mim mesma, fechando definiti< mente a porta  Outra. Uma queda do terceiro an(f magoa tanto quanto uma queda do centsimo and*.'
Se eu tiver que cair, que caia de lugares bem al
IN ao saia de novo em jejum - disse a mulher.
- No sabia que a senhora falava espanhol - respondi, surpreendida.
- A fronteira  aqui perto. Os turistas vm para Lourdes no Vero. Se eu no souber espanhol, no alugo quartos.
Ela comeou a preparar torradas e caf com leite. Eu comecei a preparar o meu esprito para enfrentar aquele dia; cada hora ia demorar um ano. Torci para que aquela refeio me distrasse um pouco.
- H quanto tempo esto casados? - perguntou ela.
- Ele foi o primeiro amor da minha vida - respondi. Era o suficiente.
- V essas montanhas a fora? - continuou a muher. - O primeiro amor da minha vida morreu numa essas montanhas.
- Mas a senhora encontrou algum.
- Sim, encontrei. E consegui ser feliz novamente. p destino  curioso: quase ninguir que eu conheo ;asou com o primeiro amor da sua vida.




152    PALO COELHO
As que casaram esto sempre a dizer que perdf ram algo importante, que no viveram tudo o q precisavam viver.                          
Ela parou de falar, de repente               i
- Desculpe - disse. - No queria ofend-la.
- No me ofende.
- Olho sempre para esse poo a fora. E fico a p< sar: antes ningum sabia onde  que estava a gua at que o Santo Savin resolveu cavar e descobriuSe no o tivesse feito, a cidade seria l em baixo, pert do rio.                                        [
- E o que  que isso tem a ver com o amor? - pei guntei.
- Este poo trouxe as pessoas, com as suas espera cs, os seus sonhos e os seus conflitos. Algum ousc procurar a gua, a gua revelou-se, e todos se reunirai!  sua volta. Penso que, quando procuramos o amor ccA coragem, ele revela-se e acabamos por atrair mais am' Se uma pessoa nos quer, todos nos querem.
No entanto, se estamos sozinhos ficamos m sozinhos ainda.  estranha a vida.
- A senhora j ouviu falar de um livro chamado Ching? - perguntei.
- Nunca.
- Ele diz que se pode mudar uma cidade, mas li se pode mudar um poo de lugar. Os amantes  contram-se matam a sua sede, constrem as sti casas, criam os seus filhos em volta do poo.    !
Mas se um deles decide partir, o poo no po< segui-lo. O amor fica ali, abandonado - embora che, da mesma gua pura de antes.
NA MAGE 1)0 RIO PlEDRA.     S   153
\. - Fala como uma velha que j sofreu muito, minha lha - disse ela.
\ - No. Tive sempre medo. Nunca cavei o poo. stou a fazer isso agora, e no me quero esquecer "os riscos.
l Senti algo que me incomodava no bolso das calas. uando enfiei a mo, e vi o que era o meu corao lou gelado. Acabei de tomar o caf a correr. r A chave. Eu tinha a chave.
j   - Existe uma mulher aqui nesta cidade, que morreu   e deixou tudo para o seminrio de Tarbes - disse eu.
- A senhora sabe onde fica a casa dela?
A mulher abriu a porta e mostrou-me. Era uma das casas medievais da praceta, cuja parte dos fundos dava para o vale e para as montanhas do outro lado.
- Dois padres estiveram a h quase dois meses atrs - disse ela. - E...
Ela olhou-me com ar de dvida.
- E um deles parecia-se com o seu marido - disse, depois de uma longa pausa. U   - Era ele - respondi eu, enquanto saa, contente l, por ter deixado a minha criana interior fazer uma .travessura.

II
j
,




F                                                                        
iquei parada na fente da casa sem saber o qi;
fazer. A bruma cobria tudo e eu parecia estar num son cinzento onde surgem figuras estranhas da nvoa, qt nos levam para lugares mais estranhos ainda.
Os meus dedos tocavam nervosamente a chave
Com toda aquela neblina, seria impossvel ver  montanhas da janela. A casa estaria escura - sem( sol nas cortinas e na neve. A casa estaria triste, sem presena dele a meu lado.                     '-
Olhei para o relgio. Nove da manh         
Precisava fazer alguma coisa, algo que me ajudasf a passar o tempo a esperar.                    (
Esperar. Esta foi a primeira lio que aprendi soh o amor. O dia arrasta-se, faz-se milhares de plan imagina todas as conversas possveis e imaginri promete mudar o seu comportamento em certas c ss - e vai ficando ansiosa ansiosa, at que o seu an do chega.
Ento j no sabe mais o que dizer. Aquelas hoi de espera transformaram-se em tenso, a tenso to




156 PAULO COELHO
nou-se medo e o medo faz com que tenhamos v. gonha de demonstrar todo o nosso afecto.      ? No sei se devo entrar. Lembrei-me de tod conversa do dia anterior - aquela casa era o smb de um sonho.                              J
Mas eu no podia ficar ali o dia inteiro pari Ganhei coragem tirei a chave do bolso e dirig| para a porta.                                 |
-Pilar!                                         %

A voz, com um forte sotaque francs, vinha da  blina. Eu fiquei mais surpreendida do que assusta Podia ser o dono da casa onde tnhamos alugado o qua
- mas eu no me lembrava de lhe ter dito o meu not
- Pilar! - repetiu, desta vez mais prximo     j Eu olhei para a praa, coberta pela nvoa. Um vut,' aproximava-se, andando rpido. O pesadelo das blinas com as suas figuras estranhas estava a tra formar-se em realidade.                        
- Espere - disse ele. - Quero conversar consigOi Quando chegou perto de mim, vi que era um t dre. A sua figura parecia-se com as caricaturas  padres do interior: baixo, um pouco gordo, algi* cabelos brancos espalhados pela cabea quase calf
- Ol - disse, estendendo a mo e esboando 3 enorme sorriso.
Eu retribui o cumprimento, atnita          
-  pena que a neblina esteja a cobrir tudo - d ele, olhando para a casa. - Saint-Savin est nu montanha e a vista da casa  linda. Das suas jane v-se o vale l em baixo e os picos gelados l em cirr Mas j deve saber.
NA MAREM 1)0 RIO PlEnRA.
5157
No mesmo instante, deduzi quem era: o superior
*o convento.
. - O que  que o senhor est aqui a fazer? - pergun-
i. - E como  que sabe o meu nome?
- Quer entrar? - disse ele, mudando de assunto.
- No. Quero que me responda ao que lhe perguntei. { Ele esfregou as mos, para aqueclas um pouco, e  sentou-se na beira do passeio. Sentei-me ao seu lado. A f neblina estava cada vez mais forte e tinha escondido a igreja - que ficava apenas a vinte metros de ns. Tudo o que conseguamos ver era o poo. Lembrei-
me das palavras da mulher.
- Ela est presente - disse eu.
- Quem?
- A Deusa - respondi. - Ela  esta bruma.
- Ento ele falou consigo acerca disso! - riu. - Bem, prefiro cham-la Virgem Maria. Estou mais habituado.
- O que  que o senhor est aqui a fazer? Como  que sabe o meu nome? - repeti.
- Vim porque queria v-los. Algum que estava no grupo carismtico ontem  noite, disse-me que vo, cs se hospedaram em Saint-Savin. E esta  uma cidade muito pequena. l  Ele foi at ao seminrio.
O padre parou de sorrir e abanou a cabea de um ado para o outro.
~ Que pena - disse, como se estivesse a falar conigo mesmo. '  Pena porque ele foi visitar o seminrio?
~ No, ele no est l. Vim de l agora.




158   PULO COELHO
Ficou sem dizer nada por alguns minutos. L brei-me outra vez da sensao que tive ao acorda dinheiro, as providncias o telefonema para os mq pais o bilhete. Mas fizera um juramento e ia mar a minha palavra.                            
Um padre estava ao meu lado. Em criana, f acostumada a contar tudo aos padres
- Estou exausta - disse para quebrar o silncio| H menos de uma semana atrs, sabia quem era l| que queria da vida. Agora, parece que entrei nu tempestade que me empurra de um lado para o outn| sem que eu possa fazer nada.                  i
- Resista - disse o padre. -  importante       j Fiquei surpreendida com o comentrio
- No se assuste - continuou ele, como se adivinhasi os meus pensamentos. - Sei que a igreja est a predsaJ de novos sacerdotes e ele seria um padre excelente. Ma| o preo que ter de pagar ser muito alto.          J
- Onde  que ele est? Deixou-me aqui e foi-s( embora para Espanha?
- Para Espanha? Ele no tem nada para fazer etj| Espanha - disse o padre. - A sua casa  o mosteir que fica a poucos quilmetros daqui.
Ele no est l. E eu sei onde posso encontr-lol
As suas palavras devolveram-me um pouco de o r gem e alegria; pelo menos no tinha partido.
Mas o padre j no sorria.                   'J
- No se anime - continuou ele, lendo outra vez < meus pensamentos. - Melhor teria sido que ele tivesi voltado para Espanha.                         ;
NA MARGEM no Rio PEDRA...   S   159
'. o padre levantou-se e pediu-me para o acompaar. S podamos ver alguns metros  nossa frente Ss ele parecia saber onde ia. Samos de Saint-Savin
1 elo mesmo caminho onde duas noites antes - ou riam sido cinco anos? - ouvi a histria de Berna-
ette.
? - Onde  que vamos? - perguntei.
j; - Vamos busc-lo - respondeu o padre.
i
- Padre o senhor deixa-me confusa - disse eu, enquanto andvamos. - Parece que ficou triste quando
disse que ele no estava.
- O que  que voc sabe sobre a vida religiosa, minha filha?
- Muito pouco. Que os padres fazem votos de pobreza castidade e obedincia.
Pensei se devia continuar ou no, mas resolvi ir
adiante.
- E que julgam os pecados dos outros embora cometam esses mesmos pecados. Que pensam conhecer tudo sobre o casamento e o amor mas nunca se casa| ram. Que nos ameaam com o fogo do inferno por 't coisas erradas que eles tambm praticam. E mostram-nos Deus como um ser vingativo que )ulpa o homem pela morte do seu nico Filho.
O padre riu-se. l - Voc teve uma excelente educao catlica -
.'.isse. - Mas no estou a perguntar sobre o catoliciso. Pergunto sobre a vida espiritual.  Eu fiquei sem reaco.




16    PAULO COELHO
- No sei ao certo - disse por fim. - So pesa que largam tudo e partem em busca de Deus. <
- E encontram?
- O senhor deve saber essa resposta. Eu no fa menor ideia.
O padre percebeu que eu estava ofegante e d nuiu o ritmo da passada.
- Definiu a coisa erradamente - comeou ele. - Qu parte em busca de Deus est a perder o seu tempo. Po percorrer muitos caminhos, filiar-se em muitas religi e seitas - mas dessa maneira, jamais ir encontr-Lo
Deus est aqui agora, ao nosso lado. Podem v-Lo nesta bruma neste cho, nestas roupas, nes sapatos. Os Seus anjos velam enquanto dormimot ajudam-nos enquanto trabalhamos. Para encontagi Deus basta olhar  nossa volta.
No  fcil esse encontro.  medida que Dl nos faz participar do Seu mistrio, sentimo-nos rr(| desorientados. Porque Ele est consta ntement|t pedir-nos para seguirmos os nossos sonhos e o nos| corao.  difcil fazer isso porque estamos habit dos a viver de uma maneira diferente.          
E descobrimos, para nossa surpresa que De quer-nos ver felizes, porque Ele  pai.
- E me - disse eu. A neblina comeava a levantar. Conseguia veri|
pequena casa de camponeses, onde uma mulher |
ta v lenha.
- Sim e me - disse ele. - Para ter uma vida esp tual, no precisa entrar para um seminrio, nem fa
jejum, abstinncia e castidade.
NA MAREM 1)0 RIO PlEDRA.
S161
{ Basta ter f e aceitar Deus. A partir da, cada um o transforma no Seu caminho, passamos a ser o ve-
ulo dos Seus milagres.
 - Ele j me falou do senhor - interrompi. - E enjnou-me essas mesmas coisas.
 - Espero que aceite os seus dons - respondeu o Ipadre. - Porque nem sempre  assim, como nos ensina / a histria. Osris  esquartejado no Egipto. Os deuses gregos desentendem-se por causa de mulheres e hoI mens da Terra. Os aztecas expulsam Quetzaiscoatl.  Os deuses vikings assistem ao incndio do Valhalla, j por causa de uma mulher. Jesus  crucificado. i    Porqu? t    Eu no sabia responder.
j    - Porque Deus vem  Terra para nos mostrar o nosso poder. Ns fazemos parte do Seu sonho e Ele l  quer um sonho feliz. No entanto, se admitirmos para |  ns mesmos que Deus nos criou para a felicidade,   teremos que assumir que tudo aquilo que nos leva j para a tristeza e para a derrota  nossa culpa. l    Por isso, matamos sempre Deus. Seja na cruz, no t ogo, no exlio, ou no nosso corao.
1   - Mas aqueles que O entendem... \f - Esses transformam o mundo.  custa de muito
acrifcio. l A mulher que carregava lenha, viu o padre e correu
.,m nossa direco.
r - Padre, obrigado! - disse ela beiando as suas
.Tos. - O rapaz curou o meu marido!
- Quem o curou foi a Virgem - respondeu o padre,
pressando o passo. - Ele  apenas um instrumento.




162    PAULO COELHO
- Foi ele. Entre por favor.                 , Lembrei-me imediatamente da noite anteri Quando estvamos a chegar  baslica um horni virou-se para mim e disse algo como est com homem que faz milagres!.
- Estamos com pressa - disse o padre.      |
- No, no estamos - respondi morrendo de gonha por falar em francs, uma lngua que no a minha. - Tenho frio e quero tomar um caf.   i
A mulher pegou-me na mo e entrmos. A ca( era confortvel, mas sem luxo; paredes de pedra cho e o tecto de madeira. Sentado diante da laes acesa, estava um homem com aproximadameflt sessenta anos.                              '
'
Assim que viu o padre, levantou-se para lhe bei a mo.                                       <(
- Fique sentado - disse o padre. - Ainda tem q( recuperar.
- J engordei dez quilos - respondeu ele. - M ainda no posso ajudar a minha mulher.        (
- No se preocupe. Em breve, estar melhor < que antes.
- Onde est o rapaz? - perguntou o homem. :(
- Eu vi-o passar para onde vai sempre - disa mulher. - S que hoje ele estava com carro     O padre olhou-me, sem dizer nada.         l
- D-nos a sua bno, padre - disse a mulher. poder que  dele...
- ... da Virgem - replicou o padre.
- ... da Virgem Me, esse poder tambm  senhor. Foi o senhor que o trouxe at aqui.      |
N MAEM 1)0 RIO PlEDKA.          163
Desta vez o padre evitou o meu olhar. , - Reze pelo meu marido, padre - insistiu a mulher. O padre respirou fundo.
- Fique de p  minha frente - disse ele para o homem. 'f O velho obedeceu. O padre fechou os olhos e coneou a rezar uma Ave-Maria. Depois, invocou o Esprito Santo e pediu que ele estivesse presente e ajudasse aquele homem.
|  De um momento para o outro, comeou a falar r pido. Parecia uma orao de exorcismo, embora eu f j no pudesse acompanhar o que ele estava a dizer. | As suas mos tocavam nos ombros do homem e desj lizavam plos seus braos - at aos seus dedos. Ele t repetiu este gesto vrias vezes.
O ogo comeou a crepitar mais forte na lareira. l Podia ser coincidncia, mas podia tambm ser que o  padre estivesse a entrar em terrenos que eu no  conhecia - e que interferiam nos elementos. |    Eu e a mulher assustvamo-nos de cada vez que a \ lenha estourava. O padre nem dava conta; estava entregue  sua tarefa - um instrumento da Virgem, \ como ele tinha dito. Falava a lngua estranha. As palaivras saam a uma velocidade surpreendente. As suas nos j no se mexiam mais - estavam colocadas nos mbros do homem.
; D repente, assim como tinha comeado, o ritual pa,X. O padre virou-se e deu uma bno convencional, ovendo a mo direita num grande sinal da cruz.
1 ~ Que Deus esteja sempre nesta casa - disse ele. E, virando-se para mim, pediu que continusseos a nossa caminhada.




164     PA ' 1.0 COELHO
- Mas falta o caf - disse a mulher, assim que viu sair.
- Se eu tomar agora um caf, depois no durrr respondeu o padre                         s
A mulher riu e murmurou algo como ainda manh. No ouvi bem, pois j estvamos na estr
- Padre, a mulher falou de um rapaz que cud, seu marido. Foi ele?                          <|
- Sim, foi ele.                              | Eu comecei a sentir-me mal. Lembrava-me do C anterior, de Bilbao, da conferncia em Madrid, pessoas a falarem em milagres, da presena que s quando rezava abraada com os outros.          l(
E eu amava um homem que era capaz de cur Um homem que podia servir o prximo, trazer al ao sofrimento, devolver a sade aos enfermos e a ;
perana aos seus parentes. Uma misso que no ca* numa casa com cortinas brancas e discos e livros p feridos.                                      'M
- No se culpe, minha filha - disse ele.
- O senhor est a ler os meus pensamentos.   C
- Sim, estou - respondeu o padre. - Tambm ter um dom e procuro ser digno dele. A Virgem ensin -me a mergulhar no turbilho das emoes huma( para saber dirigi-las da melhor maneira possve
- O senhor tambm faz milagres           
- No sou capaz de curar. Mas tenho um dos d do Esprito Santo.
- Ento o senhor pode ler o meu corao, padre sabe que o amo e que este amor cresce a cada mini Ns descobrimos juntos o mundo e juntos perma
NA MAKUE 0 RIO PlEDKA.          165
emos nele. Ele esteve presente em todos os dias da
ninha vida - querendo ou no. .. O que  que eu podia dizer quele padre que camihava a meu lado? Ele jamais poderia entender que eu .jve outros homens, que me apaixonei e que se me tivesse casado teria sido feliz. Ainda em criana, eu tinha descoberto e esquecido o amor, numa praa de Soria. (   Mas, plos vistos no fiz um bom trabalho. Bastaram trs dias para que tudo voltasse ao de cima.
- Tenho o direito de ser feliz, padre. Recuperei o que estava perdido, no quero voltar a perder. Vou lutar pela minha felicidade.
Se eu renunciar a esta luta estarei tambm a renunciar  minha vida espiritual. Como o senhor diz, seria afastar Deus, o meu poder e a minha fora de mulher. Vou lutar por ele, padre.
Eu sabia o que  que aquele homem, baixo e gordo, estava ali a fazer. Tinha vindo para me convencer a deix-lo, porque ele tinha uma misso mais importante para cumprir.
No, no ia acreditar naquela histria de que o padre que caminhava a meu lado gostaria que nos casssemos, para morarmos numa casa igual quela de Saint-Savin. O padre dizia isso para me enganar, para ique eu baixasse as minhas defesas, e ento - com um jsorriso - me convencer do contrrio.
| Ele ouviu os meus pensamentos sem dizer nada. Mas talvez estivesse a enganar-me, talvez no fosse capaz de adivinhar o que os outros pensavam. A nelina dissipava-se rapidamente, eu agora podia ver
t caminho, a encosta da montanha, o campo e as r-




1P.M'LO COELHO
vores cobertos de neve. As minhas emoes tambr iam ficando mais claras                     m
Droga! Se fosse verdade, e o padre fosse mef capaz de ler os pensamentos ento que lesse e s besse de tudo. Que soubesse que ontem ele quis f amor comigo e eu recusei - e estava arrependida
Ontem pensava que - se ele tivesse que partir I poderia sempre lembrar-me do velho amigo del| fncia. Mas era tolice. Mesmo que o seu sexo no dj tenha penetrado, algo mais profundo penetrou, meu corao foi atingido.                     J
- Padre, eu amo-o - repeti.                  N(
- Eu tambm. O amor faz sempre asneiras. No m. caso, obriga-me a tentar afast-lo do seu destino. '<
- No ser fcil afastar-me, padre. Ontem, duraa(| as oraes em frente  gruta, descobri que tamb| eu posso despertar esses dons de que o senhor falfdl vou us-los para mante-lo junto a mim.         S
- Oxal - disse o padre, com um leve sorriso < rosto. - Oxal consiga isso.
O padre parou e tirou um tero do bolso. Dep segurando-o, olhou bem nos meus olhos.       .'1
- Jesus disse que no se deve jurar e eu no estcl jurar. Mas estou a dizer-lhe, na presena do que rc sagrado, que eu no desejaria que ele seguisse a religiosa convencional. No gostaria que ele fo! ordenado sacerdote.
Ele poderia servir Deus de outras maneiras. A !
lado.                                        i Custava-me acreditar que ele estivesse a dize
verdade mas estava.                         '
NA MARG no Rio PIFDRA...      17
 - Ele est ali - disse o padre.
( Eu virei-me. Podia ver um carro parado um pouco
Imais adiante. O mesmo carro em que viemos de Es-
panha. l - Ele vem sempre a p - respondeu a sorrir. - Desta
J vez, quis dar-nos a impresso de que tinha viajado para longe.




\
A neve ensopava os meus sapatos. Mas o pad, usava sandlias abertas, com meias de l - e resol,2 no reclamar                                j
Se ele podia, eu tambm podia. Comemos a sufef em direco aos cumes.
- Durante quanto tempo vamos andar?
- Meia-hora, no mximo.                    |
-- Para onde vamos?                         1
- Ao encontro dele. E de outros              f Vi que n,'o queria continuar a conversa. Talv necessitasse de todas as suas energias para subir. C, minhmos em sincio - a neblina j estava qua1 dissolvida e o disco amarelo do sol comeava a a-" recer.                                       |
Pela primeira vez, podia ter uma viso comp do vale; um no r> correr l em baixo, algumas voaes espalhadas e Saint-Savin encravada na f costa daquela montanha. Reconheci a torr da igr< um cemitrio que nunc tinha notad e as casas dievais com vista para o rio.                   1
NA MAKCM no Rio PIEDRA...      169
'. Um pouco abaixo de ns, por um lugar onde j nhamos passado, um pastor conduzia o seu rebanho e ovelhas.
. - Estou cansado - disse o padre. - Vamos parar jn pouco.
Limpmos a neve de cima de uma pedra e encostmo-nos. O padre suava - e os seus ps deviam estar
 congelados.
- Que Santiago conserve as minhas energias, porque ainda quero percorrer o seu caminho mais uma vez - disse o padre virando-se para mim.
Eu no percebi o comentrio e resolvi mudar de assunto.
- Existem marcas de passos na neve - disse.
- Algumas so de caadores. Outras so de homens e mulheres que querem reviver uma tradio.
- Que tradio?
- A mesma do Santo Savin. Retirar-se do mundo, vir para estas montanhas, contemplar a glria de Deus.
- Padre, eu preciso entender uma coisa. At ontem, eu estava com um homem cuja dvida era a vida
i religiosa ou o casamento. Hoje descobri que esse ho-
| mem faz milagres.
| - Todos fazemos milagres - disse o padre. - Jesus |,disse que se tivermos f do tamanho de um gro de jmostarda e dissermos a esta montanha: move-te!, jeia mover-se-.
No quero uma aula de religio, padre. Eu amo um lhomem e quero saber mais sobre ele, entendlo, ajudl"lo. No me importa o que todos podem ou no fazer.




170    PAULO COELHO
O padre respirou fundo. Ficou por um momei indeciso, mas recomeou:                    i
- Um cientista que estudava macacos numa i da Indonsia conseguiu ensinar a uma certa mac que ela devia lavar as batatas num rio, antes de co -Ias. Livre da areia e das porcarias o alimento fiei mais saboroso.
0 cientista - que fez aquilo s porque estava a crever um trabalho sobre a capacidade de apren zagem dos chimpazs - no podia imaginar o qi acabaria por acontecer. Ficou surpreendido ao ver q[ os outros macacos da ilha comeavam a imit-la i
At que, um belo dia, quando um nmero dete( minado de macacos aprendeu a lavar as batatas, macacos de todas as outras ilhas do arquiplago ct mearam a fazer o mesmo. O mais surpreendent porm,  que estes outros macacos aprenderam sef ter qualquer contacto com aquela ilha - onde a e[ perencia estava a ser levada a cabo.           |
Ele parou.
- Entendeu?                             
- No - respondi.                         
- Existem vrios estudos cientficos a respeito d| s. A explicao mais comum  que, quando um (J terminado nmero de pessoas evolui, toda a ri| humana acaba por evoluir. No se sabe quantos S necessrios - mas sabe-se que  assim         m
- Como a histria da Imaculada - disse eu. - m eceu aos sbios do Vaticano e  camponesa ignoranj
- O mundo tem uma alma e chega um momento e que esta alma age em tudo e todos ao mesmo temptt
NA MARGEM no Rio PIEDRA...      171
i - Uma alma feminina. \ Ele riu, sem me deixar saber o que  que aquela
jisada significava.
- Por sinal o dogma da Imaculada no foi uma Icoisa s do Vaticano - disse ele. - Oito milhes de pessoas assinaram uma petio ao Papa a pedir isso.  As assinaturas vieram de todos os cantos do mundo.
f A coisa estava no ar.
- Esse  o primeiro passo, padre?
- De qu?
- Do caminho que vai levar Nossa Senhora a ser considerada como a encarnao da face feminina de Deus. Afinal, j aceitmos que Jesus encarnou a Sua face masculina.
- O que  que quer dizer?
- Quanto tempo vai demorar para que aceitemos uma Santssima Trindade onde a mulher aparece? A Santssima Trindade do Esprito Santo, da Me e do
Filho.
- Vamos andar - disse ele. - Est muito frio para
ficarmos aqui parados.




- H
l la pouco tempo atrs, reparou nas minh' sandlias - disse ele.
- O senhor l mesmo os pensamentos? - pergun Ele no me respondeu.                    "
- Vou contar-lhe parte da histria da funda1 da nossa Ordem religiosa - disse. - Somos carmeli descalos, segundo as regras estabelecidas por S ta Teresa D'Avila. As sandlias fazem parte; ser
paz de dominar o corpo  ser capaz de dominar? esprito.                                    ,J
Teresa era uma linda mulher, cujo pai a coloc no convento para que tivesse uma educao m.' apurada. Um belo dia, quando passava por um co< dor, comeou a conversar com Jesus. Os seus xta eram to fortes e profundos, que ela entregou-sel talmente a eles e em pouco tempo a sua vida mudi por completo. Vendo que os conventos carmelita tinham transformado em agncias de casamei resoveu crar uma Ordem que seguisse os ensi
mentos originais de Cristo e do Carmelo.
NA MAGEM 1)0 RO PlEDRA.
173
l Santa Teresa teve que se vencer a si mesma e teve jue enfrentar os grandes poderes da sua poca - a lereja e o Estado. Mesmo assim foi em frente, conIvencida de que precisava cumprir a sua misso. f Um belo dia - quando a sua alma fraquejava | uma mulher andrajosa apareceu na casa onde estava  hospedada. Queria falar, custasse o que custasse, com a Madre. O dono da casa ofereceu-lhe uma esmola, mas ela rejeitou: s sairia dali quando falasse com Teresa.
Esperou durante trs dias do lado de fora - sem comer e sem beber. A Madre, compadecida, pediu-lhe que entrasse.
- No - disse o dono da casa. - Ela  louca. - Se eu fosse dar ouvidos a todos, acabaria por achar que eu  que sou louca - respondeu a Madre. Pode ser que esta mulher tenha o mesmo tipo de loucura que eu: a de Cristo na cruz.
- Santa Teresa falava com Cristo - disse eu.
- Sim - respondeu.
Mas voltemos  histria. A tal mulher foi recebida pela Madre. Disse chamar-se Maria de Jesus Yepes, de Granada. Era uma carmelita novia, quando a Virgem apareceu, a pedir-lhe que fundasse um convento de acordo com as regras primitivas da Ordem. |  Como Santa Teresa, pensei. ; - Maria de Jesus saiu do convento no dia da sua ; viso e caminhou, descala, at Roma. A sua peregri nao demorou dois anos - perodo em que dormiu | ao relento, morreu de frio e de calor, sobreviveu de ; esmolas e da caridade alheia. Foi um milagre chegar




174   PULO COELHO
l. Mas milagre maior ainda foi ser recebida pelo Pap, Pio IV.
- Porque o Papa assim como Teresa - e provav mente muitas outras pessoas - estava a pensar n mesma coisa - conclu.
Assim como Bernadette no sabia da deciso d Vaticano assim como os macacos de outras ilhas na podiam saber da experincia que estava a ser rea lizada, assim como Maria de Jesus e Teresa no sabiam o que uma e outra estavam a pensar.
Alguma coisa comeava a fazer sentido.
Estvamos agora a caminhar por um bosque. Os ramos mais altos, secos e cobertos de neve, recebiam os primeiros raios de sol. A neblina estava a dissipar-
-se por completo.
- Sei onde  que quer chegar, padre.
- Sim. O mundo vive um momento em que muita
gente est a receber a mesma ordem.
- Siga os seus sonhos transforme a sua vida num caminho que leva a Deus. Realize os seus milagres. Cure. Faa profecias. Oia o seu anjo da guarda. Transforme-se. Seja um guerreiro e seja feliz no seu
combate.
- Corra os seus riscos.
O sol inundava, agora, tudo. A neve comeou a brilhar e a claridade excessiva magoava a minha vista. Mas - ao mesmo tempo - parecia completar o que o
padre estava a dizer.
- E o que  que isto tem a ver com ele?
- Eu contei-lhe o lado herico da histria. Mas no sabe nada sobre a alma desses heris.




176    PAULO COELHO
Ele fez uma longa pausa.                  ;
- O sofrimento - continuou. - Nos momentor transformao, surgem os mrtires. Antes qu / pessoas possam seguir os seus sonhos, outros pi3 sam sacrificar-se. Enfrentam o ridculo, a pers co, a tentativa de desacreditar os seus trabalhe''
- A Igreja queimou as bruxas padre.       |
- Sim. E Roma deitou os cristos aos lees. Qtt morreu na fogueira ou na arena subiu rapidame  Glria Eterna - foi melhor assim             l
Mas hoe, os guerreiros da Luz enfrentam ai pior que a morte com honra que os mrtires tivera!? So consumidos pouco a pouco pela vergonha e c, humlhao. Assim foi com Santa Teresa  que sofr1 o resto da sua vida. Assim foi com Maria de ]es Assim foi com os alegres meninos de Ftima: Jacu e Francisco morreram em poucos meses e Lcia i ternou-se num convento, de onde nunca mais sail
- Mas com Bernadette no foi assim         l
- Sim, foi. Teve que aguentar a priso, a hui lhao, o descrdito. Ele deve-lhe ter contado tu isto. Deve-lhe ter contado das palavras da Apari
- Algumas palavras - respondi.             .
- Nas aparies de Lourdes, as frases de Nossa f nhora no do para encher meia pgina de um ca no; mesmo assim, a Vrgem fez questo de diz pastora: no lhe prometo felicidade neste mun Porque  que uma das suas poucas frases foi para , venir e consolar Bernadette? Porque Ela sabia da que a esperava dali por diante, se aceitasse a sua misS
Eu olhava para o sol, a neve e as rvores sem folh"
NA MAKC,[:.\I 1)0 RIO PlEKA...        177
l - Ele  um revolucionrio - continuou o padre e o torn da sua voz era humilde. - Tem poder, conversa J com Nossa Senhora. Se conseguir concentrar bem a | sua energia pode estar na vanguarda, ser um dos lderes da transformao espiritual da raa humana. l O mundo vive um momento muito importante.
Se, no entanto, esta for a sua escolha, ir sofrer muito. As suas revelaes vieram antes da hora. Eu conheo suficientemente a alma humana para saber o que o espera para a frente.
O padre virou-se para mim e segurou-me nos ombros.
- Por favor - disse. - Afaste-o do sofrimento e da tragdia que o esperam. Ele no resistir.
- Entendo o seu amor por ele, padre. Ele abanou a cabea.
- No, no entende nada.  ainda jovem demais para conhecer as maldades do mundo. Neste momento, tambm se est a ver como uma revolucionana. Que mudou o mundo com ele, abriu caminhos, quer fazer com que a vossa histria de amor se transforme em algo lendrio, que ser contado de gerao em gerao. Ainda acredita que o amor pode vencer.
- E no pode?
- Sim, pode. Mas vencer na hora certa. Depois das batalhas celestes terminarem. . - Eu amo-o. E no preciso esperar pelas batalhas elestes para deixar o meu amor vencer. i O seu olhar tornou-se distante. l - Nas margens dos rios da Babilnia sentmo-nos e chormos - disse, como se falasse para si mes-



178    PAULO COLHO
mo. - Nos salgueiros que l havia pendurmo nossas harpas                            4
- Que coisa triste - respondi eu.            l
- So as primeiras linhas de um Salmo. Fala| exlio daqueles que querem voltar  Terra Promj e no podem. E esse exlio ainda vai durar mais algj tempo. O que posso far para tentar impedir c| frimento de algum que quer voltar ao Paraso arf
da hora?                                   \
- Nada, padr. Absolutamente nada.        
-t|
Ali est ele - disse o padre.
Eu vi-o. Devia estar a uns duzentos metros de mim, ajoelhado no meio da neve. Estava sem camisa e - mesmo  distncia - reparei na sua pele arroxeada pelo frio.
Mantinha a cabea baixa e as mos postas em orao. No sei se estava influenciada pelo ritual a que assistira na noite anterior, se pela mulher que juntava lenha na cabana - mas eu sentia-me a olhar para algum com uma gigantesca fora espiritual. Algum que j no pertencia a este mundo - vivia em comunho com Deus e com os espritos iluminados do Alto. O brilho da neve  sua volta parecia reforar mais esta impresso.
- Neste monte existem outros assim - disse o paJdre. - Em constante adorao, comungando com a xperincia de Deus e da Virgem. Ouvindo anjos, santos, profecias palavras de sabedoria e transmitindo do isso para um pequeno grupo de fiis. Enquanto ssrn ior/ no haver problema.


80 PALO Cofi.HO
Mas ele no vai ficar aqui. Ir correr o mui pregar a idea da Grande Me. A Igreja no quei agora. E o mundo tem pedras na mo, para atira1 primeiros que tocarem nesse assunto.       i
- E tem flores nas mos, para os que vierem d
- Sim. Mas esse no  o seu caso.          ( O padre comeou a andar na sua direco 
- Onde  que vai?
- Vou despert-lo do seu transe. Dizer-lhe que  tei de si. E que abenoo esta unio. Quero fazer aqui, neste lugar que - para ele -  sagrado
Comecei a sentir nuseas, como algum est com medo mas no entende o porqu de
medo.                                 ,i
<
- Preciso pensar padre. No sei se est certo. j
- No est certo - respondeu ele. - Muitos pai ram co os seus filhos porque pensam que sabei que  que  melhor para eles. Eu no sou o seu p sei que estou a agir erradamente. Mas tenho .* cumprir o meu destino
Eu estava cada vez mais ansiosa           d
- No vamos interromp-lo - dizia. - Deixe f ele acabe a sua contemplao.                ;
- Ele no devia estar aqui. Devia estar consig
- Talvez esteja a conversar com a Virgem. :t;
- Pode ser. Mesmo assim, precisamos ir at f. ele me vir consigo, saber que lhe contei tude sabe o que eu penso.                       {
- Hoje  o dia da Imaculada Conceio - ini Um dia muito especial para ele. Acompanhei , alegria ontem  noite, diante da gruta.        \
NA MARGM 1) RIO PlDRA..       181
- A Imaculada  importante para todos ns - resondeu o padre. - Mas agora sou eu quem no quer 'jiscutir religio: vamos at l. < - Porqu agora, padre? Porqu neste minuto?
- Porque sei que ele est a decidir o seu futuro. E Ipode ser que escolha o caminho errado. Eu virei-me na direco oposta e comecei a descer
pelo mesmo caminho que tnhamos subido. O padre
veio atrs.
- O que  que est a fazer? No v que  a nica que o pode salvar? No v que ele a ama, e que largaria tudo por si?
Os meus passos eram cada vez mais rpidos e tornava-se difcil seguir-me. Mesmo assim, ele continuou a andar ao meu lado.
- Neste exacto momento ele est a escolher! E pode estar a escolher deix-la! - dizia o padre. - Lute por aquilo que ama!
Mas eu no parei. Andei o mais rpido que podia deixando para trs a montanha, o padre, as escolhas. Sei que o sacerdote que corria atrs de mim estava a ler os meus pensamentos descobria que era intil qualquer tentativa de me fazer voltar. Mesmo assim, ele insistia, argumentava lutava at ao fim.
i Finalmente, chegmos  pedra onde tnhamos desansado meia-hora antes. Eu estava exausta e atirei-
*e para o cho.
| No pensava em nada. Queria fugir dali, ficar s,
r tempo para pensar e reflectir.
;* O padre chegou alguns minutos depois - tambm
austo pela caminhada.


182    PAULO COELHO
- Est a ver estas montanhas  nossa volta? guntou ele. - Elas no rezam; elas j so a ora?
Deus. So assim porque encontraram o seu lu
o,.
mundo e nesse lugar permanecem. Elas esto a r antes de o homem olhar o cu ouvir o trovo guntar quem criou tudo isto. Nascemos, sofr morremos e as montanhas continuam a.     a
Existe um momento em que precisamos pi se vale a pena tanto esforo. Por que no tenta como estas montanhas - sbias antigas e no seu I adequodo? Por que arriscar tudo para transfoia meia-dzia de pessoas que esquecem logo o que; foi ensinado e partem para uma nova aventura? que no esperar que um determinado nmero de cacos-homens aprenda e - ento - o conhecim seja espalhado sem sofrimento por todas as ilha!
- O senhor acha isso mesmo, padre?        f Ele ficou quieto por instantes.
- Est a ler o meu pensamento?            ,|?
- No. Mas se o senhor achasse isso, no teria ' Ihido a vida religiosa
- Muitas vezes tento entender o meu destino - 1 ele. - E no consigo. Aceitei ser parte do exerci' Deus e tudo o que tenho feito  tentar explic homens porque  que existe misra, dor, inj Eu peo que sejam bons cristos e eles pergus, -me: como posso crer em Deus, quando existe sofrimento no mundo?                    (
E tento explicar o que no tem explicao.;
dizer que existe um plano, uma batalha entre al que estamos todos envolvidos nessa luta. Tento
NA MARGM DO Rio PI.DRA...   .   183
que, quando um determinado nmero de pessoas siver f suficiente para mudar este cenrio, todas as outras pessoas - em todas as partes do planeta - sero beneficiadas por esta mudana. Mas no acreditam iem mim. No fazem nada.
J - So omo as montanhas - disse eu. - So belas. S Quem chega diante delas no consegue deixar de  pensar na grandeza da Criao. So provas vivas do
amor que Deus sente por ns, mas o destino destas
J montanhas  apenas dar testemunho.
?   No so como os rios, que se movem e transformam a paisagem.
- Sim. Mas por que no ser como elas
- Talvez porque deve ser terrvel o destino das montanhas - respondi. - Elas so obrigadas a contemplar sempre a mesma paisagem.
O padre no disse nada.
- Eu estava a estudar para ser montanha - continuei. - Tinha cada coisa no seu lugar certo. Ia entrar para um emprego pblico, casar-me, ensinar a re! ligio dos meus pais aos meus filhos, embora j no l acreditasse nela.
Hoje estou decidida a largar tudo isso e seguir o homem que eu amo. Ainda bem que desisti de ser | montanha - no ia aguentar muito mais tempo. : ~ Diz coisas sbias.
| - Tenho-me surpreendido comigo mesma. Dantes |s conseguia falar da infncia. l Levantei-me e continuei a descer. O padre respeiu o meu silncio e no tentou conversar comigo at hegarmos  estrada.


184PAULO COELHO
Eu peguei nas suas mos e beijei-as.
- Quero despedir-me. Mas quero dizer q* entendo, e ao seu amor por ele.             f O padre sorriu e abenoou-me           f
- Tambm entendo o seu amor por ele - diss
.
..
LJurante o resto daquele dia caminhei pelo vale. Brinquei com a neve estive numa cidade prxima de Saint-Savin comi um po com pat e fiquei a olhar para uns meninos que jogavam  bola.
Na igreja da outra povoao, acendi uma vela. Fechei os olhos e repeti as invocaes que aprendera no dia anterior. Depois comecei a pronunciar palavras sem sentido - enquanto me concentrava na imagem de um crucifixo atrs do altar. Aos poucos, o dom das lnguas foi tomando conta de mim. Era mais fcil do que eu pensava.
Podia parecer idiota - murmurar coisas, dizer palavras que no se conhece e que no significam nada para o nosso raciocnio - mas o Esprito Santo estava a falar com a minha alma e a dizer coisas que ela precisava ouvir.
Quando senti que estava purificada o suficiente, voltei a fechar os olhos e rezei:Nossa Senhora devolve-me a f. Que eu tambm possa ser um instruento do Teu trabalho. Dai-me a oportunidade de


186    PAULO COELHO
aprender atravs do meu amor. Porque o amor n afastou ningum dos seus sonhos            Que eu seja companheira e aliada do homer amo. Que ele faa tudo o que tem a faer - a lado.
'i
uando voltei para Saint-Savin j era quase noite. O carro estava parado diante da casa onde tnhamos alugado o quarto.
- Onde  que estiveste? - perguntou ele, assim que me viu.
- A andar e a rezar - respondi. Ele deu-me um forte abrao.
- Por momentos tive medo que te tivesses ido embora. Tu s a coisa mais preciosa que tenho nesta terra.
Tu tambm - respondi.


p                                              i
l aramos numa povoao perto de San Martin Unx. A travessia dos Pirenus tinha demorado m do que pensvamos - por causa da chuva e da ne do dia anterior.                             !
'"'
- Precisamos encontrar alguma coisa aberta - di ele, enquanto saa do carro. - Estou com fome.   ! Eu no me mexi.                          [
- Vem - insistiu abrindo a minha porta      j
- Quero fazerte uma pergunta. ma pergunta q nunca fiz desde que nos encontrmos
Ele ficou imediatamente srio. Ri-me da sua pr.f cupao.                                    |
'
- E uma pergunta muito importante?
- Muito importante - respondi tentando parf sria. - A pergunta  a seguinte: Para onde  que ms a ir?                                    4
Desatmos os dois a rir sonoras gargalhadas. |
- Para Saragoa - respondeu alviado       t Sa do carro e comemos a procurar um restaurai aberto. Seria quase impossvel, quela hora da noite
NA MARM 1)0 RIO PlERA.
189
; No, no  impossvel. A Outra j no est comigo. J Os milagres acontecem, disse para mim mesma. | - Quando  que tens de chegar a Barcelona? - per guntei.
l  Ele no respondeu e o seu rosto ficou srio. Devo i evitar estas perguntas, pensei. Pode parecer que
estou a tentar controlar a vida dele.
Andmos um pouco sem dizer nada. Na praa da
pequena cidade havia um letreiro de non: Meson El
Sol.
- Aquele est aberto. Vamos comer - e foi o seu nico comentrio.
Os pimentes vermelhos com anchovas estavam dispostos em forma de estrela. Ao lado, o queijo Manchego, em fatias quase transparentes.
No centro da mesa, uma vela acesa e uma garrafa de Rioja, quase pela metade.
- Isto era uma adega medieval - comentou o rapaz que nos servia.
No havia quase ningum no restaurante, quela hora da noite. Ele levantou-se foi at ao telefone e voltou para a mesa. Tive vontade de perguntar para quem tinha ligado - mas desta vez consegui controlar-me.
- Ficamos abertos at s duas e meia da manh continuou o rapaz. - Mas, se quiserem podemos trazer mais presunto queijos e vinho, e vocs ficam na praa. O lcool afastar o frio.
- No nos vamos demorar assim tanto - respondeu ele. Temos que chegar a Saragoa antes que amanhea.
O rapaz voltou para o balco. Tornmos a encher os nossos copos. Eu sentia novamente a leveza que


190   PAULO COELHO
senti em Bilbao - a suave embriaguez do Rioja, nos ajuda a dizer e a ouvir as coisas difceis   u
- Tu ests cansado de guiar e estamos a beb disse eu depois de uma golada. -  melhor fica por aqui. Eu vi um Parador* no caminho      ff
Ele concordou com a cabea.              ,
- Olha para esta mesa  nossa frente - foi o con:' trio dele. - Os japoneses chamam a isto de srb a verdadeira sofisticao das coisas simples. As p soas enchem-se de dinheiro vo a lugares caro acham que esto a ser sofisticadas               Eu bebi mais vinho. O Parador. Mais uma noite a seu lado.        :i A virgindade que misteriosamente se refizera.rf
- E curioso ouvir um seminarista a falar de sofstica,
- disse eu enquanto me tentava concentrar noutra cA !
- Pois aprendi isso no seminrio. Quanto mais n aproximamos de Deus atravs da f, mais sipl Ele se torna. E quanto mais simples Ele se torna mi forte  a Sua presena                       v
s
!
A sua mo deslizou pela tbua da mesa.     ;
- Cristo aprendeu a sua misso enquanto cortaf madeira fazia cadeiras, camas armrios. Veio cofl carpinteiro, para nos mostrar que - no importC que faamos - tudo nos pode levar  experinciL
amor de Deus.                           ?
'1
Ele parou de repente.                      .(
- No quero falar disto - disse. - Quero falar outro tipo de amor.
Antigos castelos e monumentos histricos transformados em ho* pelo governo espanhol. (N. do A.)                         l
N MAE nu RIO PlERA.
S   191
; As suas mos tocaram na minha cara. f O vinho tornava as coisas mais fceis para ele. E | para mim.
; - Por que  que paraste de repente? Por que  que ; no queres falar de Deus da Virgem, do mundo espi ritual?
- Quero falar de um outro tipo de amor - insistiu.
- Aquele que um homem e uma mulher compartilham e onde tambm se manifestam milagres.
Segurei as mos dele. Ele podia conhecer os grandes mistrios da Deusa - mas de amor sabia tanto quanto eu. Apesar de ter viajado tanto.
E tinha que pagar um preo: a iniciativa. Porque a mulher paga o preo mais alto: a entrega.
Ficmos de mos dadas por um longo tempo. Eu lia nos olhos dele os medos ancestrais que o verdadeiro amor coloca como provas a serem vencidas. Eu li a lembrana da rejeio da noite anterior, o longo tempo que passmos separados, os anos passados no mosteiro em busca de um mundo onde estas coisas no aconteciam.
Eu lia nos olhos dele as milhares de vezes em que tinha imaginado este momento os cenrios que tinha construdo em nosso redor o cabelo que eu deveria estar a usar e a cor da minha roupa. Eu queria dizer sim, que ele seria bem-vindo que o meu corao ; tinha vencido a batalha. Eu queria dizer o quanto o i amava o quanto o desejava naquele momento.
'\  Mas continuei em silncio. Assisti como se fosse um ; sonho  sua luta interior. Vi que tinha diante dele o meu
 no, o medo de me perder, as palavras duras que ouviu


192    PAULO COELHO
em momentos semelhantes da sua vida - porque te ns passamos por isso, e acumulamos cicatrizes
Os seus olhos comearam a brilhar. Sabia qu estava a vencer todas aquelas barreiras
Ento, soltei uma das mos, peguei num CQ" coloquei-o na borda da mesa.               ,;1
- Vai cair - disse ele.
- Exacto. Quero que tu o derrubes.        . ;f
- Partir um copo?                        ' Sim, partir um copo. Um gesto aparentemente S, pies, mas que envolvia pavores que nunca chega ms a perceber. O que h de errado em partir i copo barato - quando todos ns j o fizemos, & querer, pelo menos uma vez na vida?          f
- Partir um copo? - repetiu ele. - Porqu?
- Posso dar algumas explicaes - respondi. - N| na verdade,  apenas por partir.
- Por ti?
- Claro que no.                         .f Ele olhava para o copo de vidro na borda da l
- preocupado com que casse. E um ritual de passagem, como tu mesmo diz'
i
tive vontade de dizer. E o proibido. Copos n partem de propsito. Quando entramos em e' rantes ou nas nossas casas, temos cuidado par os copos no fiquem na borda das coisas. O ,, universo exige que tomemos cuidado para que c,, ps no caiam no cho.                    /
No entanto, continuei a pensar, quando os timos sem querer vemos que no foi to grave a O empregado diz no tem importncia e nunc
NA MARE DO RIO PlERA...      193
ninha vida vi os copos partidos serem includos na onta de um restaurante. Partir copos faz parte da ida e no causamos nenhum dano a ns prprios, ao restaurante, ou ao prxmo. L Eu dei um empurro na mesa. O copo balanou
 mas no caiu. f   Cuidado! - disse ele, instintivamente.
j   - Parte o copo - insisti eu.
Parte o copo pensava comigo mesma, porque  um gesto simblico. Procura entender que eu parti dentro de mim coisas muito mais importantes que um copo e estou feliz por isso. Olha para a tua prpria
luta interior e parte esse copo.
Porque, os nossos pais ensinaram-nos a ter cuidado com os copos e com os corpos. Ensinaram-nos que as paixes de infncia so impossveis, que no devemos afastar homens do sacerdcio, que as pessoas no fazem milagres e que ningum vai em viagem
sem saber para onde vai.
Parte esse copo por favor - e liberta-nos de todos esses malditos conceitos / essa mania que se tem de explicar tudo e s fazer aquilo que os outros apro-
\ vam.
l   - Parte esse copo - pedi mais uma vez. \ Ele fixou os seus olhos nos meus. Depois devagar deslizou a sua mo pelo tampo da mesa, at toc-lo. i Num movimento rpido, empurrou-o para o cho.
O barulho do vidro a quebrar-se chamou a ateno de todos. Ao invs de disfarar o gesto com algum


14 PMI.O COELHO
pedido de desculpas ele olhava-me a sorrir -1 sorria para ele.                             i
- No tem importncia - gritou o rapaz que ato s mesas.                                '
Mas ele no ouviu. Tinha-se levantado agai -me os cabelos e beijava-me.
Eu tambm o agarrei plos cabelos o abracei , toda a fora, mordi os seus lbios, senti a sua lrf dentro da minha boca. Era um beijo pelo qual tf esperado muito - que tinha nascido junto aos rio nossa infncia, quando ainda no compreenda. o significado do amor. Um beijo que ficou suspe no ar quando crescemos, que viajou pelo mundo vs da lembrana de uma medalha que ficou est, dido atrs de um monte de livros de estudo para emprego pblico. Um beijo que se perdeu tantas zes e que agora tinha sido encontrado. Naquele m to de beijo estavam anos de buscas de desiluse sonhos impossveis.                         ',
Eu beijei-o com fora. As poucas pessoas que, vam naquele bar devem ter olhado e pensad apenas um beijo. No sabiam que naquele rrtt de beijo estava o resumo da minha vida, da vidaj da vida de qualquer pessoa que espera, sonha e| o seu caminho debaixo do sol.              j
Naquele minuto de beijo estavam todos oS| mentos de alegria que vivi.                 n
Ele tirou-me a roupa e penetrou-me com fora, com medo com vontade. Senti alguma dor, mas aquilo no tinha importncia - como nem tinha importncia o meu prazer naquele momento. Eu passava as minhas mos pela cabea dele, ouvia os seus gemidos e agradecia a Deus por ele estar ali, dentro de mim, fazendo-me sentir como se fosse a primeira vez.
Ammo-nos a noite inteira - e o amor misturava-se com sono e sonhos. Eu sentia-o dentro de mim e abraava-o para ter a certeza de que aquilo estava mesmo a acontecer, para no deixar que ele, de repente, partisse - como os cavaleiros andantes que um dia i habitaram o velho castelo transformado em hotel. As senciosas paredes de pedra parecam contar histris \ de donzelas que ficavam  espera, das lgrimas der: ramadas e dos dias sem fim  janela, a olhar o hon[ zonte, em busca de um sinal ou de uma esperana. Mas eu jamais passaria por isso, prometi a mim mesma. No iria perd-lo nunca. Ele estaria sempre l comigo - porque eu ouvi as lnguas do Esprito Santo


196   PAULO COELHO
olhando para um crucifixo por detrs de um alt elas disseram que eu no estava a cometer nen
pecado                                  i
Eu seria a sua companheira e juntos desbravH ms o mundo que estava para ser criado de r( Falaramos da Grande Me lutaramos ao lad Arcanjo Miguel viveramos juntos a agonia e o  dos pioneiros. Isto foi o que me disseram as lngi', e eu tinha recuperado a f/ sabia que falava verdade                                  
"'
'
QVWTA-FEIRA Q DE DEZEMBRO DE 13


Acordei com os braos dele em cima dos meus seios. J era dia claro e os sinos da igreja estavam a tocar.
Ele beijou-me. As suas mos acariciaram mais uma vez o meu corpo.
- Temos que ir - disse. - Hoje acabam os feriados, as estradas devem estar congestionadas.
- No quero ir para Saragoa - respondi. - Quero seguir a direito para onde tu vais. Os bancos abrem daqui a pouco posso usar o carto para levantar algum dinheiro e comprar roupas.
- Tu disseste-me que no tinhas muito dinheiro.
- Eu dou um jeito. Tenho de romper sem piedade com o meu passado. Se voltar a Saragoa posso vir a achar que estou a fazer uma loucura, que falta pouco para os exames que podemos esperar dois meses separados - at que eu os termine.
E, se eu passar, no vou querer sair de Saragoa. No, no posso voltar. Preciso queimar as pontes que me ligam  mulher que fui.


200   PAULO COELHO
- Barcelona - disse ele para consigo.         ;
- O qu?                                |
- Nada. Vamos continuar a viagem.        |
- Mas tu tens uma palestra                 j
- Ainda faltam dois dias - respondeu ele. A v soava estranha - Vamos a outro lugar. No querc directamente para Barcelona.
Levantei-me. No queria pensar em problemal talvez tivesse acordado como sempre se acorda d pois da primeira noite de amor com algum: com un certa cerimnia e vergonha.                    |
Fui at  janela, abri uma fresta na cortina e olh para a pequena rua nossa frente. As varandas d casas tinham roupa estendida a secar. Os sinos toc< vam l fora.
- Tenho uma ideia - disse eu. - Vamos a um luga onde j estivemos quando ramos crianas. Nunc mais l voltei                               s
- Onde?                              t
- Vamos ao Mosteiro de Piedra.
.it
(uando samos do hotel, os sinos continuavam a tocar e ele sugeriu que entrssemos um pouco na
igreja.
- No temos feito outra coisa - respondi eu. - Igrejas, oraes rituais.
- Fizemos amor - disse ele. - Embriagmo-nos trs vezes. Caminhmos pelas montanhas. Temos equilibrado bem o Rigor e a Misericrdia.
Eu tinha dito uma asneira. Precisava acostumar-me a uma nova vida.
- Desculpa-me - disse.
- Entramos por pouco tempo. Estes sinos so um
sinal.
Ele tinha razo mas eu s ia perceber isso no dia seguinte. Sem perceber o sinal oculto pegmos no carro e viajmos durante quatro horas at ao Mosteiro de Piedra.

\
U tecto tinha desabado e as poucas imagens c ainda existiam estavam sem cabea - excepto un
Olhei em volta. No passado, aquele lugar de' ter abrigado homens de forte vontade, que cuidav para que cada pedra estivesse limpa e que cada bar? estvesse ocupado por um dos poderosos da pot
Mas tudo o que agora via  minha frente eram nas. As runas que na infncia, se transformavam castelos onde brincvamos juntos e onde eu pro rava o meu prncipe encantado.               /
Durante sculos os monges do Mosteiro de Pie guardaram para si aquele bocado do paraso. Situa no fundo de uma depresso geogrfica tinhar graa aquilo que as povoaes vzinhas tinhanf mendigar para conseguir: gua. Ali, o Rio Ps. espalhava-se em dezenas de cascatas, riachos 1 fazendo com que uma vegetao luxuriante se d volvesse  sua volta.                        |
-
Entretanto, bastava rmnhar algumas centena metros e sair do canyon: tudo em volta era rid
NA MARCM 1X1 RIO PlERA...    J   203
desolao. O prprio rio, quando acabava de cruzar a depresso geogrfica, transformava-se de novo num fio de gua como se naquele lugar tivesse gasto toda a sua juventude e energia.
Os monges sabiam disso e a gua que forneciam aos seus vizinhos era cara. Um sem nmero de lutas entre os sacerdotes e as povoaes marcou a histria do mosteiro.
Por fim, durante uma das muitas guerras que sacudiam a Espanha o Mosteiro de Piedra foi transformado em quartel. Cavalos passeavam pela nave central da igreja, soldados acampavam por entre os seus bancos contavam histrias pornogrficas e faziam amor com as mulheres das povoaes vizinhas.
A vingana - embora tardia - tinha chegado. O mosteiro foi saqueado e destrudo.
Nunca mais os monges conseguiram reaver aquele paraso. Numa das muitas batalhas jurdicas que se seguiram algum disse que os habitantes das povoaes vizinhas executaram uma sentena de Deus. Cristo dissera: dai de beber a quem tem sede e os padres ficaram surdos s Suas palavras. Por esse motivo Deus expulsou os que se julgavam donos da Natureza.
E talvez fosse por isso que - embora grande parte do convento tivesse sido reconstrudo e transformado em hotel, a igreja principal ainda permanecia em runas. Os descendentes dos povos vizinhos continuavam a lembrar-se do alto preo que os seus pais tiveram que pagar - por uma coisa que a Natureza dava de graa.

204   PAULO COELHO
- De quem  a nica imagem com cabea?  " guntei.
j
- Santa Teresa DAvila - respondeu ele. - Ela' poder. E mesmo com toda a sede de vingana q guerras trazem ningum ousou tocar-lhe.
Ele pegou-me na mo e samos. Passemos * gigantescos corredores do convento, subimos a gs escadas de madeira e vimos as borboletas jardins internos do claustro. Eu lembrava-me de c detalhe daquele mosteiro - porque estivera ali na fncia e as memrias antigas parecem mais vivas que as lembranas recentes.                  .
Memria. O ms anterior - e os dias anten quela semana - pareciam fazer parte de uma oi,2 encarnao minha. Uma poca a que eu no qu voltar nunca mais, porque as suas horas no tini; sido tocadas pela mo do amor. Eu sentia-me co se tivesse vivido o mesmo dia durante anos a. acordado da mesma maneira repetido as mesnf coisas e ido dormir sempre com os mesmos sonh
Lembrei-me dos meus pais dos pais dos meus f e de muitos amigos meus. Lembrei-me de q., tempo passei a lutar para conseguir uma coisa| no queria.
Porque fizera isso? No conseguia encontrar explicao. Talvez porque tinha preguia de p! noutros caminhos. Talvez pelo medo do que os 01 iriam pensar. Talvez porque ser diferente desse m. trabalho. Talvez porque o ser humano est cond(
NA M AR HM 1)0 RIO PlERA...      205
do a repetir os passos da gerao anterior, at que - e lembrei-me do padre superior - um determinado nmero de pessoas comece a comportar-se de uma outra maneira.
Ento, o mundo muda e ns mudamos com ele.
Mas eu no queria mais ser assim. O destino devolvera-me o que era meu e agora dava-me a possibilidade de me mudar a mim mesma e de ajudar a transformar o mundo.
Pensei de novo nas montanhas e nos alpinistas que encontrmos quando passevamos. Eram jovens, tinham as roupas coloridas para chamar a ateno caso se perdessem na neve e conheciam o trilho certo at aos cumes.
As encostas j estavam cravejadas com espiges de alumnio: tudo o que precisavam fazer era passar, atravs de ganchos as cordas e subir com segurana. Estavam ali para uma aventura de feriado e na segunda-feira retornariam aos seus trabalhos com a sensao de terem desafiado a natureza - e vencido.
Mas no era nada disso. Aventureiros foram os primeiros, os que decidiram descobrir os caminhos. Alguns no chegaram nem a metade e caram em fendas nas rochas. Outros perderam os seus dedos, gangrenados pelo frio. Muitos nunca mais foram vistos. Mas um dia, algum chegou ao cimo daqueles picos.
E os seus olhos foram os que primeiro viram aquela paisagem e o seu corao bateu com alegria. Ele tinha aceite correr riscos e agora honrava - com a sua conquista - todos os que tinham morrido enquanto tentavam.

206   PULO COELHO
 possvel que as pessoas l em baixo pensass No h nada l em cima, apenas uma paisagem; a  graa disso?                             t
Mas o primeiro alpinista sabia qual era a gr' aceitar os desafios e ir adiante. Saber que nenl( dia era igual ao outro e que cada manh tinha d( milagre especial, o seu momento magico, onde ve universos se destruam e novas estrelas se criava
O primeiro homem que subiu quelas montan! deve ter feito a mesma pergunta, ao olhar para aqt1 Ias casinhas l em baixo com as suas chamins a  megar: O dia deles parece sempre igual; que gra' tem isso?                                  t,
Agora as montanhas j estavam conquistadas, astronautas j tinham andado no espao, no hs* mais nenhuma ilha na terra - por menor que foss que pudesse ser descoberta. Mas restavam as grane aventuras do esprito - e uma delas estava a ser oferecida.
Era uma bno. O padre superior no perce' nada. Estas dores no magoam.
Bem-aventurados os que podem dar os primo passos. Um dia as pessoas saberiam que um hotl era capaz de falar a lngua dos anjos que todo temos os dons do Esprito Santo e que podemos S milagres, curar, professar, entender.
Passmos a tarde a caminhar pelo canyon, lembrando-nos dos tempos de infncia. Era a primeira vez que ele fazia isso; na nossa viagem at Bilbao parecia j no se interessar por Soria.
Agora porm, pedia-me detalhes de cada um dos nossos amigos, queria saber se eram felizes e o que
faziam na vida.
Chegmos, finalmente  maior cascata do Piedra
- que junta as guas de pequenos riachos espalhados e as atira de uma altura de quase trinta metros. Ficmos parados na margem ouvindo o rudo ensurdecedor, contemplando um arco-ris na neblina que as grandes quedas de gua formam.
- A Cauda do Cavalo - disse eu, surpreendida por ainda me lembrar de um nome que tinha ouvido
h tanto tempo atrs.
- Estou a lembrar-me... - comeou ele.
- Sim! Eu sei o que vais dizer! Claro que sabia! A queda de gua escondia uma gigantesca gruta. Ainda em crianas, quando volt-

208
PAULO COELHO
ms do nosso primeiro passeio ao Mosteiro de Piec comentmos sobre aquele lugar dias seguidos
- A caverna - completou ele. - Vamos at l!  Era impossvel passar por debaixo da torren gua, que caa. Os antigos monges construram tnel que saa do ponto mais alto da cascata, descf por dentro da terra at  parte de trs da gruta i
No foi difcil achar a entrada. Durante o V talvez existissem luzes para mostrar o caminho; n8 ns ramos as nicas pessoas ali e o tnel esta completamente s escuras.
- Vamos assim mesmo? - perguntei.        ,
- Claro. Confia em mim.                  .
'*. Comemos a descer pelo buraco ao lado da
cata. Embora a escurido nos cercasse sabamos p onde estvamos a ir - e ele dissera para eu con nele.
Obrigado Senhor pensava eu enquanto pe travamos cada vez mais fundo no seio da terra. Pf que eu era uma ovelha perdida e Tu trouxeste-meiC volta. Porque a minha vida estava morta e Tu res
citaste-a. Porque o amor no habitava mais noa' corao e Tu devolveste-me essa graa.     \
Eu segurava no ombro dele. O meu amado grf os meus passos pelo caminho de trevas sabend tornaramos a encontrar a luz e nos alegraramo ela. Podia ser que no nosso futuro existissem( mentos em que esta situao se invertesse; ento
gui-lo-ia com o mesmo amor e a mesma certeza
i
N MARGEM 1)0 RIO PlEDRA...      209
chegarmos a um lugar seguro, onde pudssemos descansar juntos.
Andvamos devagar e a descida parecia no terminar nunca. Talvez ali estivesse um novo rito de passagem - fim de uma poca em que nenhuma luz brilhava na minha vida.  medida que eu caminhava por aquele tnel, lembrava-me de quanto tempo eu tinha perdido no mesmo lugar a tentar criar razes num solo onde mais nada crescia.
Mas Deus era bom e dera-me de volta o entusiasmo perdido, as aventuras que sonhei, o homem que
- sem querer - tinha esperado por toda a minha vida. Eu no sentia qualquer remorso pelo facto de ele estar a deixar o seminrio; porque havia muitas maneiras de servir Deus, como o padre dissera, e o nosso amor multiplicaria essas maneiras. A partir de agora, eu tambm tinha a oportunidade de servir e de ajudar tudo por causa dele.
Sairamos pelo mundo, ele levando conforto aos outros e eu levando-lhe conforto a ele.
Obrigada, Senhor, por me ajudares a servir. Ensina-me a ser digna disso. D-me foras para ser parte dessa misso caminhar com ele pela Terra, desenvolver novamente a minha vida espiritual. Que todos os nossos dias sejam como foram estes - de lugar em lugar, a curar os doentes, confortar os tristes, falar do amor da Grande Me por todos ns.

S
"i
P
le repente o barulho da gua voltou a luz in dou o nosso caminho e o tnel negro transformo num dos mais belos espectculos da Terra. Estava; dentro de uma imensa caverna - do tamanho de u catedral. Trs paredes eram de pedra; a quarta pat era a Cauda do Cavalo com a sua gua a caii lago verde-esmeralda, a nossos ps.
Os raios do sol poente atravessavam a cascata, paredes molh'as brilhavam.

*.:
Ficmos recostados na pedra, sem dizer nada Antes quando ramos crianas, este lugar e esconderjo dos piratas que guardava os tesouroa nossas fantasias infantis. Agora, era o milagre daf Terra; eu sentia-me no seu ventre sabia que Ela e,;' ali, protegendo-nos com as suas paredes de pj lavando os nossos pecados com a sua parede de
- Obrigada - disse eu em voz alta.        d
- A quem  que ests a agradecer?         h
- A Ela. E a ti que foste um instrumento pai a minha f voltasse.                          J
N MARGEM DO Riu Pl.DRA...      211
Ele aproximou-se da beira do lago subterrneo. Contemplou as suas guas e sorriu.
- Vem at aqui - pediu ele. Eu aproximei-me.
- Tenho que te contar uma coisa que ainda no sabes - disse ele.
As suas palavras deixaram-me apreensiva. Mas o seu olhar estava tranquilo e eu voltei a acalmar-me.
- Todas as pessoas sobre a face da Terra tm um dom - comeou. - Em algumas, ele manifesta-se espontaneamente e outras, precisam trabalhar para o encontrar. Eu trabalhei o meu dom, durante os quatro anos que passei no seminrio.
Agora, eu precisava de contracenar, para usar um termo que ele me tinha ensinado, quando o velho nos interpelou na igreja.
Eu tinha que fingir que no sabia de nada.
No est errado, pensei. No  um roteiro de frustrao, mas de alegria.
- O que  que se faz num seminrio? - perguntei,  procura de mais tempo para melhor desempenhar o meu papel.
- No vem ao caso - disse. - O facto  que desenvolvi um dom. Sou capaz de curar, quando Deus assim o deseja.
- Que bom - respondi tentando parecer surpreendida. - No gastaremos dinheiro com mdicos! Ele no se riu. E eu senti-me uma idiota.
Desenvolvi os meus dons atravs das rticas carismticas que tu viste - continuou. - A princpio, ficava estupefacto; orava, pedia a presena do Esprito

212,
<
Santo, impunha as minhas mos e devolvia a sa a muios doentes. A minha fama comeou a espall -se e - todos os dias - havia uma fila de pessoi porta do seminrio,  espera que eu os socorre Em cada ferida infecta e malcheirosa eu via as ch de Jesus.
- Tenho orulho de ti - disse.              "1.

- Muita gente no mosteiro ficou contra mas o i,, superior deu-me todo o seu apoio.
- Continuaremos esse trabalho. Seguiremos jun;
pelo mundo. Eu limpare as feridas, tu as abenoa e Deus manifestar os seus milagres.
Ele desviou os olhos de mim e fixou-os no la Parecia haver uma presena naquela caverna - al semelhante  noite em que nos embriagmos jul ao poo de Saint-Savin.                      
- Eu j te contei, mas vou repetir - continuout.t Certa noite, acordei com o quarto todo iluminado.'. o rosto da rande Me e o seu olhar de amor. A pa desse dia, comecei a v-La de vez em quando. ;. consigo provocar mas de vez em quando ela apare
Por essa altura, eu j estava a par do trabalho revolucionrios da Igreja. Sabia que a minha mis na Terra, alm de curar, era a de aplainar o cami para que Deus-Mulher fosse de novo aceitfl| princpio feminino, a coluna da Misericrdia torl a erguer-se - e o Templo da Sabedoria seria reO trudo no corao dos homens.              '\
Eu olhava-o. A sua expresso, que antes era te voltou a ficar tranquila.                       I
- Isso tinha um preo - que eu estava disposto a p
;V.A yfAK,!: 1' I\l ".-1
Ele ficou quieto, sem saber como continuar a sua
histria.                                             ,
- O que  que queres dizer com estava - perguntei.
-O camnho da Deusa poderia ser aberto apenas com palavras e milagres. Mas o mundo no funciona assim. Vai ser mais duro; lgrimas, incompreenso, sofrimento.
Aquele padre pensei comigo mesma. Tentou colocar o medo no corao dele. Mas eu serei o seu
conforto.
- O caminho no  de dor  da glria de servir -
respondi                                    r
- A maioria dos seres humanos ainda desconfia
do amor.                           -   . Senti que ele me quena dizer algo e no estava a
consegui-lo. Talvez eu pudesse ajud-lo.
- Eu estava a pensar nisso - interrompi. - O primeiro homem que escalou o pico mais alto dos Pireneus f-lo porque entendeu que a vida sem aventura no
Ou que tu entendes de graa? - perguntou, e reparei que estava outra vez tenso. - Um dos nomes da Grande Me  Nossa Senhora das Graas - e as suas mos generosas derramam as suas bnos sobre
todas as pessoas que sabem recebe-las. Nunca podemos julgar a vida dos outros, porque \ cada um sabe da sua prpria dor e renncia. Um coisa  tu achares que ests no caminho certo; outra e
achares que o teu caminho  o nico. \    )esus disse: a casa do meu pai tem muitas mora; das O dom  uma graa. Mas tambm  uma graa { saber levar uma vida de dignidade, de amor ao proxi-

214 PA l 'L O COELHO
mo e de trabalho. Maria teve um marido na T que procurou demonstrar o valor do trabalho < nimo. Embora sem aparecer muito foi ele que pr tecto e alimento para que a sua mulher e o seu t pudessem fazer tudo o que fizeram. O seu trahl tem tanta importncia como o trabalho deles, em quase no se d valor a isso.                Eu no dsse nada- Ele segurou na minha m,
- Perdoa a minha intolerncia.               Beijei a sua mo e coloquei-a no meu rosto.   t(
-  isto que eu te quero explicar - disse ele no mente a sorrir. - Que, a partir do momento em que
A
reencontrei, entend que no podia fazer-te sofrer cc a minha misso                              y Eu comecei a ficar inquieta                  
- Ontem, eu menti. Foi a primeira e ltima men que te contei - continuou. - Na verdade, ao inves ir para um seminrio, eu fui para a montanha e ct versei com a Grande Me.                   i
Disse que - se Ela quisesse - eu me afastaria d,, e continuaria o meu caminho. Continuaria com a t
ta cheia de doentes, com as viagens a meio da n* com a incompreenso dos que querem negara f,<. o olhar cnico dos que desconfiam de que o amol v. Se Ea me pedisse eu renunciaria  coisa quen quero neste mundo: a ti.
Lembrei-me mais uma vez do padre. Ele tinl zao. Uma escolha estava a ser feita naquela ma
- No entanto - continuou - se fosse possvel afl, este clice da minha vida eu prometia servir o m travs do meu amor por ti.                 \
N M A KC, : M DO RIO PIRA...
21;
- O que  que ests a dizer? - perguntei, assustada.
Ele parecia no me ouvir.
- No  preciso tirar as montanhas dos seus lugares
ara provar a f - disse. - Eu estava pronto para encarar soznho o sofrimento, mas no para dividi-lo be continuasse naquele caminho, jamais teramos uma casa com cortinas brancas e a viso das montanhas.
- Eu quero l saber da casa! Eu nem quis entrar nela' - disse, procurando conter-me e no gritar Eu quero acompanhar-te, estar contigo na tua lua, fazer parte daqueles que se aventuram primeiro _Sera que tu no entendes? Tu devolveste-me a fe'0 sol tinha mudado de posio e os seus raios inundavam agora as paredes da caverna. Mas toda aquela beleza comeava a perder o seu significado.
Deus escondeu o Inferno no meio do Paraso.
- Tu no sabes - disse ele e vi que os seus olhos mploravam para que eu o compreendesse. - Tu no
sabes o risco.
- Mas tu eras feliz com ele!
- Eu sou feliz com ele. Mas ele  o meu
Eu quis interromp-lo mas ele no me ouvia.
- Ento ontem eu pedi  Virgem um milagre continuou. - Pedi que me retirasse o meu dom. Eu no acreditava no que estava a ouvir.
- Tenho algum dinheiro e a experincia que os anos ; de viagem me deram. Compraremos uma casa, ; arranjarei um emprego e servirei Deus como o fez So }os, com a humildade de uma pessoa annima. | No preciso mais de milagres para manter viva a
minha f. Preciso de ti.

216   PAULO COELHO
As minhas pernas foram ficando fracas, com fosse desmaiar
- E, no momento em que pedi  Virgem para r" o meu dom, comecei a falar as lnguas - contini As lnguas diziam-me o seguinte: Coloca as m<f terra. O teu dom sair de  e voltar ao seio da
Eu estava em pnico.                     s
- Tu no...                                 '
- Sim. Eu fiz o que a inspirao do Esprito S' ordenava. A neblina comeou a dissolver-se e o ;' voltou a brilhar entre as montanhas. Senti que a |f gem me entendia - porque ela tambm amou mi
- Mas Ela seguiu o seu homem! E aceitou os pa do Filho!                                  t
- No temos a fora d'Ela, Pilar. O meu dom para outra pessoa - ele nunca  desperdiado.
0ntem, naquele bar telefonei para Barcelon' cancelei a palestra. Vamos para Saragoa: tu conh gente e podemos comear por ali. Arranjarei logo t emprego.
Eu j no conseguia pensar.                 |'
- Pilar! - disse ele.                         If Mas eu j estava a caminhar em direco ao tu sem nenhum ombro amigo para me guiar - seg pela multido de doentes que iam morrer, pelj mlias que iriam sofrer plos milagres que no s[ realizados plos risos que no enfeitariam o ms([ pelas montanhas que ficariam sempre no mesnai
gar.                                      Eu no via nada, apenas a escurido quase que me cercava                           '
SEXTA-F E RA, 10 DE DEZEMBRO DE 13

l\a margem do Rio Piedra eu sentei e chorei. As memrias daquela noite so confusas e vagas. Sei apenas que estive perto da morte - mas no me lembro do seu rosto e para onde me levava.
Gostaria de record-la - para que pudesse expuls-la tambm do meu corao. Mas no consigo. Tudo parece um sonho desde o momento em que sa daquele tnel escuro e encontrei um mundo onde a noite tambm j tinha descido.
Nenhuma estrela brilhava no cu. Lembro-me vagamente de ter caminhado at ao carro, pegado a mala que tinha comigo e de ter comeado a andar sem rumo. Devo ter caminhado at  estrada, tentado apanhar uma boleia de volta para Saragoa - sem o ter conseguido. Terminei por voltar aos jardins do mosteiro.
O barulho da gua era omnipresente - as cascatas estavam em todos os cantos e eu via a presena da Grande Me, perseguindo-me por onde quer que eu fosse. Sim, Ela tinha amado o mundo; amara o mundo

220     A'LO COLHO
tanto quanto Deus - porque tambm dera o Seu Fi para ser sacrificado plos homens. Mas ser entendia o amor de uma mulher por um homen
Ela podia ter sofrido por amor/ mas era um a diferente. O Seu grande Noivo conhecia tudo, milagres. O Seu Noivo na Terra era um trabalh humilde que acreditava em tudo o que os seusl nhos diziam. Ela nunca soube o que era abandon* ou ser abandonada por um homem. Quando Jos p sou em expulsa-La de casa porque estava grvida Noivo dos cus enviou logo um anjo para evitar qtf isso acontecesse.                            ;,
O Seu filho deixou-a. Mas os filhos deixam sempt' os pais. E fcil sofrer por amor ao prximo por an ao mundo ou por amor ao seu filho. Esse sofrimer: d a sensao de que isso faz parte da vida de qufit uma dor nobre e grandiosa. E fcil sofrer por amor uma causa ou a uma misso: isso s engrandec corao de quem sofre.                       C
Mas como explicar o sofrimento por um home.-
_                                                                                                                                       . ii
E impossvel. Ento, sentimo-nos no Inferno por< no existe nobreza ou grandeza - apenas misria
JN aquela noite eu deitei-me no cho gelado e o frio anestesiou-me logo. Por instantes, pensei que podia morrer se no arranjasse um agasalho - mas e da? Tudo o que era mais importante na minha vida tinha-me sido dado generosamente numa semana e fora-me tirado num minuto, sem que eu tivesse tido tempo de dizer nada.
O meu corpo comeou a tremer de frio e eu no ligava. Num dado momento, ele ia parar - porque teria gasto toda a sua energia a tentar aquecer-me e j no poda fazer mais nada. Ento, o corpo voltaria  sua tranquilidade habitual e a morte acolher-me-ia nos seus braos.
Tremi durante mais de uma hora. E a paz chegou.
Antes de fechar os olhos comecei a ouvir a voz da minha me. Ela contava-me uma histria que j me tinha contado quando eu era criana, sem nunca desconfiar que era uma histria sobre mim.
Um rapaz e uma rapariga apaixonaram-se loucamente dizia a voz da minha me, numa mistura de

222   PAULO COELHO
sonho e delrio. E resolveram ficar noivos. Os noh
(
presenteiam-se sempre.                     (
0 rapaz era pobre - o seu nico bem consi num relgio que herdou do av. A pensar nos b cabelos da sua amada resolveu vender o relgio p[ comprar um lindo travesso em prata        .
A rapariga tampouco tinha dinheiro para o sente de noivado. Ento, foi at  loja do princi comerciante do lugar e vendeu os seus cabelos. Ct o dinheiro comprou uma corrente de ouro para j relgio do seu amado.                        |
Quando se encontraram no dia da festa do no| vado, ela d-lhe a corrente para um relgio que f vendido e ele d-lhe um travesso para uns cabeli que no existiam mais.
.
.<f
n
Acordei com um homem a sacudir-me.
- Beba! - dizia ele. - Beba rpido!
Eu no sabia o que se passava nem tinha foras para resistir. Ele abriu a minha boca e obrigou-me a beber um lquido que me queimava por dentro. Reparei que estava em mangas de camisa - e que eu usava o seu agasalho.
- Beba mais! - insistia ele.
Eu no sabia o que se estava a passar; mesmo assim obedeci. Depois, tornei a fechar os olhos.

';
v                               t
V oitei a acordar no convento, com uma mulh: olhar para mim.
- A senhora quase morreu - disse ela. - Se no c o vigia do mosteiro no estaria mais aqui.
Eu levantei-me, trpega, sem saber bem o que,' zia. Parte do dia anterior voltou-me  memria e cfa je que o vigia nunca por l tivesse passado   -(f
Mas agora, o tempo certo da morte tinha pass, Eu ia continuar a viver.                       :]?
A mulher levou-me at  coinha e deu-me e biscoitos e po com azeite. No fez perguntas e tambm no me expliquei. Quando acabei de coi;
devolveu-me a minha mala.                /
- Veja se est tudo a- disse.              |
- Deve estar. Eu no tinha nada, mesmo.   |
- Tem a sua vida minha filha. Uma longa? Cuide melhor dela.                        t
- Existe uma cidade aqui perto que tem uma
- disse eu quase a chorar. - Ontem, antes de vir c, eu entrei nessa igreja com...              f
NA MARGEM RO RIO PlEDRA...      225
Eu no sabia como explicar.
- ...com um amigo de infncia. J estava farta de visitar igrejas mas os sinos estavam a tocar e ele disse que era um sinal, que precisvamos entrar.
A mulher encheu a minha chvena serviu-se de algum caf para ela, e sentou-se para ouvir a minha histria.
- Entrmos na igreja - continuei. - No havia ningum e estava escuro. Tentei descobrir qualquer sinal mas tudo o que via eram os mesmos altares e os mesmos santos. De repente, ouvimos um movimento na parte superior da igreja, onde fica o rgo.
Entrou um grupo de rapazes, com violas e comearam a afinar os instrumentos. Resolvemos sentar-nos para ouvir um pouco de msica antes de partirmos em viagem.
Pouco depois, um homem entrou e sentou-se ao nosso lado. Estava alegre e gritava para os rapazes que tocassem um pasodoble.
- Msica de tourada! - disse a mulher. - Espero que no tenham feito isso.
- No fizeram. Mas riram e tocaram uma cano flamenca. Eu e o meu amigo de infncia sentamo-nos como se os cus tivessem descido sobre ns; a igreja a escurido acolhedora, o som das violas e a alegria do homem ao nosso lado - tudo aquilo era um milagre.
Pouco a pouco a igreja foi enchendo. Os rapazes continuavam a tocar a msica flamenca e quem entrava sorria e deixava-se contagiar pela alegria dos msicos.

226    PAL'LO COELHO
0 meu amigo perguntou-me se eu queria as  missa que devia comear da a pouco. Eu diss? no - tnhamos uma longa viagem pela frente. P1 vemos sair - mas antes agradecemos a Deus por aquele lindo momento nas nossas vidas     
Assim que chegmos  porta, reparmos que tas pessoas - muitas mesmo, talvez todos os t tantes daquela pequena cidade - estavam a dirii para a igrea. Eu pense comigo mesma: esta dev4 a ltima povoao catlica de Espanha. Talvez i que aqui as missas sejam muito animadas.    ../
Ao entrarmos no carro, vimos um cortejo qu aproximava. Traziam um caixo. Algum ti| morrido e aquela era uma missa de corpo prese Assim que o cortejo chegou  porta da igreja os rn cos pararam com as canes flamencs e comeara tocar um requiem.
- Que Deus tenha piedade dessa alma - dise mulher fazendo o sinal da cruz.
- Que tenha piedade - disse eu repetindo o gesto. - Mas, entrar naquela igreja foi mesmo <' sinal. De que a tristeza est sempre  espera no f da histria.                                 /
s?
A mulher olhou-me e no disse nada. Ento s voltou alguns instantes depois com vrias folh(1 papel e uma caneta.                        '
- Vamos at l fora - disse ela. Samos juntas. Estava a amanhecer        ,
- Respire fundo - pediu-me. - Deixe que esta' manh entre nos seus pulmes e corra pelas suas v( Plos vistos, a senhora no se perdeu ontem por ac[
NA MARGEM DO RIO PIERA...      227
Eu no disse nada.
- Tampouco a senhora entendeu a histria que acaba de me contar, sobre o sinal da igreja - continuou.
- S viu a tristeza do fim. Esqueceu os momentos alegres que passou l dentro. Esqueceu a sensao de que os cus tinham descido sobre si e de como era bom estar a viver tudo aquilo junto do seu... Ela parou e sorriu.
-...amigo de infncia - disse piscando-me o olho.
- Jesus disse: deixe que os mortos enterrem os mortos. Porque ele sabe que a morte no existe. A vida j existia antes de nascermos e continuar a existir depois de deixarmos este mundo.
Os meus olhos encheram-se de lgrimas.
- O mesmo se passa com o amor - continuou. - J existia antes e continuar para sempre.
- Parece que a senhora conhece a minha vida - disse eu.
- Todas as histrias de amor tm muita coisa em comum. Eu tambm passei por isso, em algum momento da minha vida. Mas no me lembro. Lembro-
-me de que o amor tornou a voltar, sob a forma de um novo homem, de novas esperanas, de novos sonhos.
Ela estendeu-me as folhas de papel e a caneta.
- Escreva tudo o que est a sentir. Tire da sua alma, escreva no papel e depois deite-o fora. A lenda diz que o Rio Piedra  to frio que tudo o que cai nele folhas, insectos, penas de aves - se transforma em pedra. Quem sabe no seri ma boa ideia deixar nas suas guas o sofrimento.

228   PAULO COELHO
Eu peguei nos papis ela deu-me um beijo e < que eu podia voltar para o almoo, se desejass
- No se esquea de uma coisa - gritou enq.* se afastava. - O amor permanece. Os homens. mudam!                               (
Eu ri-me e ela acenou-me
Fiquei a olhar para o rio durante muito te Chorei at sentir que no tinha mais lgrimas
Ento comecei a escrever.
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Cscrevi durante um dia, e outro, e mais outro. Todas as manhs ia para a margem do Rio Piedra. Em todos os entardeceres a mulher aproximava-se pegava-me pelo brao e levava-me para o seu quarto no antigo convento.
Lavava as minhas roupas, preparava o antar conversava sobre coisas sem importncia e deitava-me na cama.
Certa manh quando j estava quase no fim do manuscrito, ouvi o barulho de um carro. O meu corao deu um salto, mas eu no queria acreditar no que ele me dizia. J me sentia livre de tudo, pronta para voltar ao mundo, e fazer outra vez parte dele.
O mais difcil tinha passado - embora a saudade permanecesse.
Mas o meu corao estava certo. Mesmo sem levantar os olhos do manuscrito eu senti a sua presena e o som dos seus passos.
- Pilar - disse ele, sentando-se ao meu lado. Eu no respondi. Continuei a escrever, mas j no conseguia mais coordenar os meus pensamentos. O

232 S  PAULO COELHO
corao dava saltos tentava libertar-se do meu p( e correr ao encontro dele. Mas eu no deixava l
Ele ficou ali sentado, a olhar para o rio, enquJ eu escrevia sem parar. Passmos a manh ir assim - sem dizer uma palavra - e eu lembrei-i silncio de uma noite junto a um poo - onde q repente percebi que o amava.               '
Quando a minha mo no aguentou maia cansao, eu parei um pouco. Ento ele disse:   |
- Estava escuro quando sa da caverna e no cor gui encontrar-te. Ento, fui at Saragoa. E fui Soria. E iria correr o mundo inteiro atrs de ti. Resc voltar ao Mosteiro de Piedra para ver se achava ma pista, e encontrei uma mulher             f.
Ela mostrou-me onde tu estavas. E disse que tens esperado por mim todos estes dias.      .' '
Os meus olhos encheram-se de lgrimas    l
- E ficarei sentado ao teu lado enquanto tu fc veres diante deste rio. E se fores dormir, dormirei. frente  tua casa. E se tu viajares para longe eu ',' guirei os teus passos.                          /.
At que tu me digas: vai-te embora. Ento i Mas hei-de amar-te para o resto da minha vida.
Eu j no conseguia disfarar o meu pranto. Vi ele tambm chorava.
- Quero que tu saibas uma coisa... - comeoa|
- No digas nada. L - respondi, enquant estendia os papis que estavam no meu colo.
Durante a tarde inteira fiquei a olhar para as guas do Rio Piedra. A mulher trouxe-nos po e vinho comentou o tempo e voltou a deixar-nos ss. Mais de uma vez, ele parou a leitura e ficou com o olhar perdido no horizonte, absorto nos seus pensamentos.
A certa altura, resolvi dar uma volta pelo bosque, pelas pequenas cascatas, pelas encostas cheias de histrias e significados. Quando o sol comeou a por-se/ voltei ao lugar onde o tinha deixado.
- Obrigado - foram as suas primeiras palavras,
quando me devolveu os papis. - E perdo. Na margem do Rio Fiedra eu sentei e chorei.
- O teu amor salva-me e devolve-me aos meus
sonhos - continuou ele.
Eu fiquei calada sem me mexer.
- Tu conheces bem o salmo 137? - perguntou. Eu fiz um sinal negativo com a cabea. Tinha medo
de falar.
- Nas margens dos rios da Babilnia...
- Sim sim, conheo - disse eu sentindo que volta-

234   PAULO COELHO
v, pouco a pouco  vida. - Fala do exlio. Fala pessoas que penduram as suas harpas porque podem cantar as msicas que o corao pede. :(
- Mas depois de o salmista chorar, com saud( da terra dos seus sonhos ele promete a si mest
X
j
Se eu me esuecer de ti,  Jerusalm,            | que se resseue a minha mo direita.            Que a minha lngua no sinta mais nenhum sabor \ se eu me esquecer de ti,  Jerusalm.
Eu sorri mais uma vez.                     i
- Eu ia esquecer. E tu fizeste-me lembrar.    i
- Tu achas que o teu dom voltar? - perguntei
- No sei. Mas Deus sempre me deu uma segui oportunidade na vida. Est a dar-ma contigo. E', dar-me- a reencontrar o meu caminho.
- Nosso - interrompi-o outra vez.
- Sim, nosso. Ele pegou-me pelas mos e levantou-me.   /
- Vai apanhar as tuas coisas - disse. - Os sot do trabalho.                                |


Barcelona, Carcassii Saux, Lourdes, Oliti Madrid, Rio de Jan,, Dez. 93 / Jan. 94
'

Uma inspiradora histria de amor dos tempos demos contada de maneira simples e lindssima.    t
i'
ANA CAST autora de S Farfror1

-(
Paulo Coelho fala a lngua que comunica com f co. Conseguindo com isso tocar a alma dos seus leit particularmente a das mulheres.                  l
DR". MONICA VON TOERNE, t
Paulo Coelho escreve com a leveza do orvalho transparncia das guas cristalinas.
L Figaro, F'

.
Paulo Coelho exibe a espantosa virtude da tran rncia que torna a sua escrita um regato fresco serpent do ao longo de uma luxuriante floresta, uma via de en<f que nadvertdamente conduz o leitor a si prprio, ei reco  sua misteriosa e longnqua alma. Figaro Littraire, 
/
"A reconsiderao do feminino, a conscinci tro e a reduo de ns mesmos, so os tpicos pri|! que Paulo Coelho nos oferece neste romance exce A companheira da vida, a Virgem Maria, a Caadora [ a Senhora das Colheitas: Cbele, Demter, Lowf,
Montserrat so qualidades do feminino que esto em ns e que devemos redescobrir para alcanar quem queremos ser realmente, o que devemos ser.
LAURA ESQUVEL (autora de Como gua para Chocolate)
Conta uma linda histria de amor entre dois amigos de infncia. Uma escrita simples e potica leva-nos numa busca e transporta-nos ao longo de um rio lendrio. Deixe a corrente deste rio arrast-lo. Tomar-se- a testemunha de uma
maravilhosa aventura.
Tou Prnoir, Frana - Setembro, 1995
Coelho f-lo novamente com Na Margem do Rio Piedra... Deve ter anjos na sua secretria.
MARIT C. ANDERSEN, Romerikes Blad, Noruea
Coelho combina realismo com sobrenatural utilizando
a mitologia do seu pas. Na Margem do Rio Piedra... trata de uma histria de amor que inclui todos os segredos do mundo. To Vima Newspaper Grcia
Este romance brilha com uma luz radiante. Os leito-
res, crentes ou no, num momento breve, encontraro uma evaso da vida quotidiana onde a esperana  normalmente
uma mercadoria rara.
VSD, Frana - Junho, 1995

